Não foram apenas garra e dedicação que levaram Adriano de Souza ao topo – por Steven Allain

por Steven Allain

“O topo da inteligência é alcançar a humildade” (Ditado judaico)

Já se foram quase 3 meses desde que Adriano de Souza conquistou o caneco de 2015 em Pipe. A ficha caiu. O Brasil está no topo do surf competitivo e a nova ordem mundial é inegável. Os gringos certamente estão se mordendo. Mas… será mesmo?

Uma das grandes surpresas dessa última disputa de título mundial foi a reação dos fãs estrangeiros à vitória de Mineirinho. Pois ela foi celebrada em todos os cantos. Aussies, yankees e havaianos – pelo que se viu e leu na mídia, fóruns e blogs na estratosfera online afora, a maior parte dos fãs de surf competitivo ficou genuinamente contente com a vitória do guarujaense. Para um cara que surfou a carreira toda sob críticas dos adversários e seus fãs – diziam que faltava estilo, que era muito agressivo na água, que não sabia entubar – foi um reconhecimento inesperadamente (quase) unânime.

A garra de Adriano foi o que conquistou o público. Ano após ano, batalhou no circuito mundial, sem baixar a cabeça. Derrubou mitos, desconstruiu favoritismos e mostrou que trabalho duro e determinação dão resultado. A galera gosta do “underdog”. Mineiro não mudou o comprometimento com seu grande objetivo e conquistou respeito. A critica virou admiração.

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Adriano na frente da casa de Jamie O’Brien. Hospedar-se na casa do local havaiano foi fundamental para sentir-se à vontade em Pipeline. Foto: Henrique Pinguim

Mas enquanto a garra é apontada como a grande qualidade de Adriano como competidor, acredito que seu verdadeiro trunfo, seu maior diferencial, é sua humildade. Não digo aquele elogio ao adversário ou agradecimento ao divino na entrevista pós-bateria. A humildade que me refiro é a capacidade de enxergar suas próprias limitações – e trabalhar exaustivamente para melhorá-las. É observar e aprender. É colocar a evolução antes do ego. É saber que identificar pontos fracos em sua própria performance é, na verdade, um sinal de força e inteligência.

Em janeiro, cruzei Mineirinho em Floripa para uma entrevista. Como não podia deixar de ser, foi no papo solto após a gravação que a coisa ficou mesmo interessante – e uma história, em particular, exemplificou a atitude que tanto diferencia nosso atual campeão.

“Me conta sobre sua estadia na casa do Jamie O’Brien,” perguntei. “Foi a Red Bull que armou essa parceria?”

Nada disso.

Adriano era o único na disputa do título que não tinha um patrocinador que lhe proporcionava acomodação de frente à Pipeline. Bem, Kelly também não. Mas o Careca tem sua própria casa a 100 metros de Pipe. Ou seja, dá na mesma. Mineiro sabia que sua missão na Rainha do North Shore era quase impossível e que precisava treinar tranqüilo para poder conquistar a vitória mais difícil de sua vida.

Ciente de que para isso ele precisava ficar de frente ao pico e contar com o incentivo dos locais nas semanas que precediam o Pipe Masters, Adriano não teve dúvidas. Bateu na porta de Jamie O’Brien.

Adriano em casa em Pipeline. Foto: Henrique Pinguim

“Jamie, estou disputando o título e preciso me hospedar de frente à Pipe. Posso alugar um quarto na sua casa?”

O havaiano fez uma cara de quem chupou limão azedo e respondeu com um categórico “não”.

“Tudo bem,” respondeu Adriano. “Desculpa qualquer coisa.”

Sem se abalar, Mineiro focou em seu objetivo e bateu cartão na onda mais famosa do mundo. Todo dia, religiosamente às 6 da manhã, ele caía em Pipe e surfava por 5, 6, 7 horas. Independente da condição. Dedicação total à onda que, diziam, ele nunca surfaria com maestria.

Uma semana depois, Adriano aguardava sua vez na fila do lineup quando sentiu um tapinha no ombro. Era Jamie O’Brien. “Tem um quarto pra você lá em casa.”

O havaiano notou a dedicação do brasileiro e mudou de idéia. Mineiro, em contrapartida, soube aproveitar a oportunidade. Soube chegar na humildade. Assim que instalou-se no QG de O’Brien, deu uma bela geral na casa. Lavou a louça, varreu o chão. No dia-a-dia, ficava na dele, sorria e cumprimentava todo mundo.

Pare e pense por um segundo: Mineiro é um cara bem-sucedido. Um vencedor na vida. Um homem que nasceu com muito pouco e hoje dá a toda sua família uma vida digna e confortável. E esse cara vencedor, líder do circuito mundial, não pestanejou em varrer o chão do JOB, só para poder surfar Pipe em paz e melhorar suas chances de ganhar o título. Isso é humildade de verdade.

Essa atitude é o que o fez evoluir tanto, como surfista e pessoa, nos últimos anos. É, no final das contas, o que lhe deu o Mundial.

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O momento da consagração: Adriano vence o Pipe Masters e é carregado até o palanque pelos locais havaianos. Foto: Pedro Gomes

O resto, como dizem, é história. Apadrinhado por JOB, Adriano surfou tranqüilo nos dias que precederam o evento, venceu Pipe (surfando melhor do que nunca) e fechou com chave de ouro o melhor ano de sua vida.

Anos atrás, Adriano sofria ameaças dos black trunks no North Shore. Surfava sob enorme pressão. Nesse dezembro, foi carregado nos ombros dos locais havaianos (e de Danilo Couto), após vencer, na casa deles, o campeonato mais treta do mundo. Com humildade genuína – seu maior trunfo – Mineiro virou o jogo.
diretofront3

  • Paulo Guillen

    Ele é um cara nota 10…

    Tem a historia de JBay, quando o Mick foi atacado por um tubarão este estava no aeroporto esperando o voo quando soube do incidente com o Mick (seu adversário direto pelo titulo).. largou tudo e voltou para Jbay pra ver como Mick estava… por isto ele é respeitados onde ele passa..

  • Simplesmente sensacional
    Um baita exemplo de pessoa!

  • Denis Abessa

    Cara, publica essa história num site gringo (stab, surfline, inertia). Isso atribui ainda mais valor à vitória de ADS (inclusive a vitória pessoal) e tal reconhecimento daria ainda mais humanidade ao campeão – afinal, se muitos gostaram, o silêncio e os sorrisos amarelos entre os locutores da WSL foram constrangedores, e ainda tem muita gente que não engoliu Mineiro como legítimo campeão. aloha!

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