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Minha opinião como surfista sobre o problema dos ataques de tubarão.

Caros colegas corredores de “olas”, dessa vez vosso James B vem aproveitar o espaço aqui na HARDCORE para falar de outro assunto que incomoda há muito tempo: ataques de tubarão.

Ataque de tubarão em Ballina, Austrália

Quero logo deixar claro que não sou especialista no assunto; aliás, creio que há bem poucos no Brasil. Essa coluna é sobre minha opinião como surfista praticante e, com certeza absoluta, não terá a profundidade técnica de um expert no assunto. E acho isso inclusive muito válido, pois nem sempre o olhar apenas técnico permite enxergar os fatos a partir de um ponto de vista mais humano.

Aliás, transformar essa coluna num drama seria bem simples: bastava procurar na internet fotos e vídeos de ataques de tubarão e usar para ilustrar o texto. A comoção seria generalizada. Mas não é esse meu objetivo.

ENTÃO; AONDE EU QUERO CHEGAR? RECIFE, MARGIES, J-BAY OU ILHAS REUNIÃO

Vamos lá! Nos últimos anos, e me corrijam se eu estiver errado, na Austrália e, principalmente nas Ilhas Reunião, o número de ataques (e sua exposição na mídia) aumentou radicalmente. E as histórias são trágicas.

De 2007 a 2016, contabilizados, foram 766 ataques no mundo todo (formalmente contabilizados… o número real deve ser maior). O estado da Flórida, nos Estados Unidos, é o campeão de ataques anualmente.

No Brasil temos nossa Praia de Boa Viagem, em Recife. Não preciso falar muito, todo surfista brasileiro já ouviu ou assistiu as histórias.

Margaret River, Austrália, 2ª etapa do CT 2017. Surfistas sendo evacuados da área de competição. E se o Filipe Toledo ou o Kolohe tivessem sido atacados? Foto: WSL

Mick Fanning, África do Sul, 2015. Poderia ter sido uma das maiores tragédia da história do esporte mundial, e transmitida ao vivo para o mundo todo. Foto: WSL

Agora em fevereiro de 2017 aconteceu o caso mais recente, um bodyboarder de 26 anos foi morto em Reunião. Na ilha aconteceram 20 ataques desde 2011, 8 fatais. De 2007 a 2010, haviam acontecido
“apenas” dois ataques. Em 2015, um garotinho de 13 anos foi morto surfando, na frente dos amigos e família. Na Austrália, a região de Byron Bay passou boa parte de 2016 em pânico, com uma série de ataques. Flórida, Hawaii, Califórnia e África do Sul também sofrem ataques constantes.

Amigos… não queiram me fazer aceitar o que acontece em Recife ou em Reunião (cito aqui como exemplos) como fatos naturais e que devem ser entendidos e acatados sob uma lógica conservacionista.

Pelo que li, e pelo que compreendo, em Recife os ataques começaram após o desequilíbrio ecológico causado pela construção do porto de Suape. Os tubarões migraram para Boa Viagem e encontraram um ambiente sem ameaças.

Em Reunião, os ataques aumentaram drasticamente nos anos seguintes à criação de uma reserva marinha em 2007 na costa oeste da ilha. Com maior abundância de peixes nos recifes, mais tubarões podem ter sido atraídos para a costa. Pode ter sido ainda por causa de uma proibição, em 1999, da venda de carne de tubarão na ilha. O que aconteceu? Menos tubarões foram pescados e criou-se o ambiente ideal para um surgimento de uma super população de tubarões tigre e cabeças-chatas. Duas das espécies mais agressivas e “territorialistas”.

Assistam a um pouco do que acontece em Reunion Island:

Segundo os relatos dos locais, a reserva marinha criada em Reunião acabou se tornando um deserto marinho, pois a população descontrolada de tubarões exterminou todas as outras espécies.

Em Boa Viagem, me corrijam leitores pernambucanos, o surfe era praticado em larga escala e não haviam registros de ataques antes da construção do porto de Suape!

Além das vidas perdidas e famílias traumatizadas e arruinadas, em Reunião a economia ligada ao turismo está falindo! Escolas de surf, lojas, supermercados, restaurantes, tudo indo para o buraco. E em nome da preservação de tubarões cabeça-chata. Sério? Sim.

Em Pernambuco, todo um mercado relacionado ao surf e ao turismo definhou. Pra preservar os tubarões tigres e cabeça-chata de Boa Viagem e arredores. Sério? Sim.

Boa Viagem, Recife. Placas para ajudar a evitar novas tragédias. Triste.


TABU ATÉ PARA KELLY SLATER

Após o último ataque em Reunião, agora em fevereiro, Kelly Slater (o surfista mais influente do planeta) veio a público, se posicionou e defendeu que deveria ser estipulada de alguma maneira uma pesca de tubarões como forma de atenuar o problema. Foi atacado por todos os lados e acabou se retratando dias depois. Uma pena. Não deveria ter cedido em nome do politicamente correto.

Afinal, por quê é tão tabu se falar em controlar a quantidade de tubarões em lugares em que o ecossistema está tão claramente desregulado?

Como eu não sou um atleta famoso, e repercussão negativa sobre a minha imagem não é um fator impeditivo pra mim: SIM, medidas de controle de população de tubarões em áreas críticas (leia-se: matar tubarões) deveriam ser tomadas. Aliás, já deveriam ter sido tomadas nesses lugares.

Ou a solução é a apatia? O ser humano se afastar do oceano? Aguardar intermináveis estudos técnicos? Colocar redes de proteção?

Por favor… não me venham com a conversa de que certas atitudes não podem ser tomadas por que o tubarão é um animal ameaçado de extinção. Quem ameaça o tubarão de extinção é o mercado asiático de consumo de barbatanas, não nós, banhistas e surfistas. Não estou defendendo caça desenfreada e extermínio de peixes ou de nenhuma outra espécie animal. Defendo controlar o que está descontrolado em áreas e regiões críticas e ameaçando vidas.

Se eu morasse em Recife ou em Reunião… Que me perdoem os ambientalistas, mas eu reuniria um grupo de amigos e organizaria alguma forma de diminuir a quantidade de tubarões nas áreas em que seres humanos estão sendo atacados em série. O desequilíbrio, nesses lugares, está nos tubarões, não nos surfistas ou banhistas.

Em alguns casos específicos, tubarão bom é o tubarão morto. Diminui-se a população e se restaura o equilíbrio.

Lembro de um caso famoso, no Hawaii, anos atrás. Houve uma série de ataques de tubarões tigre em uma praia onde os filho de um sujeito chamado Perry Dane (big rider local, black trunk e pescador) frequentavam. O Mr. Perry começou a sair todos os dias com o barco dele para capturar tubarões tigre. Foi criticado até a alma pelos ambientalistas, mas o fato é que ele controlou a população de tubarões na área e resolveu a situação.

Em nome de uma postura politicamente (ou ecologicamente) correta, criou-se uma cultura generalista de que a preservação do meio ambiente é sagrada e deve estar acima de outras coisas. Isso na teoria é lindo. Mas até que ponto? E o ser humano não é parte desta equação?

Me solidarizo. Me solidarizo com os tubarões enquanto espécie ameaçada. Me solidarizo com a causa da preservação ambiental. Me solidarizo com o fato dos tubarões fazerem parte do complexo e maravilhoso ecossistema marinho.

Mas me solidarizo muito, muito, mas muito mais, com as famílias que perderam entes queridos ou sofreram traumas muitas vezes irreparáveis, seja em Recife, Hawaii, Flórida ou em Reunion Island. Quando se chega a um ponto de ter de escolher, que se danem os tubarões.

 

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