Texto Guto Queiroz | Fotos Henrique Pinguim
HC #319 • Julho/2016

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NO BARCO: COLISÃO

A próxima trip poderia ser a mais irada de todas. Os amigos Leandro e Yago Dora haviam aceitado o convite de partir em uma viagem de exploração. Trariam com eles Lucas Silveira, atual campeão mundial Pro Júnior, Yuri Gonçalves, Dr. Marcelo Amaral, o videomaker Bruno Zanin e o fotógrafo Henrique Pinguim.

Chegando próximo da data da viagem, um grande swell confirmou de vez as presenças. Teríamos 10 pés plus de ondas nos primeiros dias, o que, inclusive, nos fez antecipar nossa partida, já que a chegada ao pico é um pouco mais complicada.

Saímos às 6h da manhã de Padang, com destino a um dos extremos das ilhas Mentawai. E lá trocamos de barco, passando a usar duas embarcações locais, uma para o nosso transporte e outra para o das bagagens até o pico.

Após algumas horas desconfortáveis, chegamos ao nosso destino. O problema foi que, desta vez, tudo estava bastante diferente… o mar estava com correntes muito fortes, o que eu ainda não havia visto por lá. O vento soprava maral forte também. E, apesar do swell ainda não ter chegado, o volume de água em cima do reef já era imenso.

O barco que estava levando as nossas coisas tinha chegado antes e pudemos notar que ele estava com dificuldades para atracar. Os cerca de 30 nativos que sempre estão nos esperando para ajudar na puxada para areia não estavam lá. Os caras foram à uma cerimônia de casamento que acontecia na aldeia vizinha. Como viajamos por várias horas, ninguém estava muito feliz em ter que esperar em um alto-mar bastante mexido. Avistar a terra de destino, sem poder tocá-la, não ajudava nada.

Foi aí que eu errei. Apesar do capitão preferir não entrar antes que nosso outro barco já tivesse sido recolhido para a areia, eu ordenei que entrasse. A palavra final sempre deve ser a do capitão, e muitos anos de Indonésia já tinham me ensinado isso, mas, mesmo assim, eu errei.

Esperamos a última onda da série e entramos seguindo ela. Foi tudo bem até chegarmos ao largamar que fica entre o reef e a areia. Estavam rolando umas correntes muito esquisitas que nem eu e nem o capitão vimos antes.

A solução foi passar para o outro barco para atracarmos primeiro. Já tinham passado quase todos quando umas correntes invertidas fizeram os barcos se desconectarem. Como o espaço é apertado, aconteceu um choque entre as embarcações na tentativa de manobra para realinhamento. A proa do barco de passageiros bateu na borda do outro, de mantimentos, e abriu um rombo não muito acima da linha d’água.

Yago Dora auxilia os locais, que arrastam o encalhado barco da trupe.

Yago Dora auxilia os locais, que arrastam o encalhado barco da trupe.

Com medo de novas colisões, o capitão decidiu varar a arrebentação, agora com destino ao alto-mar. Nesta hora estavam ainda no barco Yago, Pinguim, Dr. Marcelo e nossa cozinheira.

A cena que vimos a seguir foi bizarra. Ao tentar fazer o previsto, entrou uma série e o barco foi obrigado a dar alguns “joelhinhos” até finalmente conseguir passar a arrebentação. Atracamos na areia, recolhemos nossas coisas, mas como não tínhamos os nativos pra ajudar a subir o barco de mantimentos pra areia, ele resolveu partir.

Ficamos todos ansiosos com a volta do barco furado e furador de ondas, que chegou sem causar novos problemas, até que resolvemos nós mesmos puxá-lo para a areia.

Com correntes laterais muito fortes, seguindo com ondas e formando um quebra-coco que eu também não tinha visto nas outras vezes, o barco foi arrancado de nossas mãos, ficando de lado para as ondas e, assim que recebeu a primeira porrada nesta posição, virou e ficou apoiado pela lateral.

As ondas começaram a fazer a embarcação dançar um break em cima da areia e rodar em todas as direções, arremessando muitos mantimentos e pertences pra água.

Aos poucos, os nativos foram chegando para ajudar e a situação foi controlada. E lá estávamos nós, com um rombo no casco e sem o barco de apoio. Pelo menos, o atento Bruno Zanin havia registrado a maior parte do caos. Mas fiquem tranquilos porque estamos só no começo da história e tudo vai ficar ainda pior…

A cena foi bizarra.
Ao tentar varar para alto-mar,
entrou uma série e
o barco foi
obrigado a dar alguns “joelhinhos”
até conseguir passar a arrebentação.

 

YAGO DORA

NO ACAMPAMENTO: TERREMOTO

Chegando no acampamento, constatamos que o mar tinha invadido tudo e que as tendas locais, que construímos para abrigar nossas barracas, não teriam mais essa utilidade, pois o mar havia nos alertado que tudo estava diferente e que ele poderia invadir novamente o local com a chegada do novo swell, que ia estourar durante a noite. Mudamos o acampamento mais para trás, mas descobriríamos que não seria o suficiente.

Nesta noite, entrou um storm com ventos de cerca de 40 nós, o que significa que passamos boa parte da noite reforçando as amarrações das barracas e, quando eu desmaiei de cansaço, lá pelas 3h da manhã, o mar invadiu tudo.

Mestre Grilão estava alerta e conseguiu resgatar as capas das pranchas e outras coisas que boiavam e dançavam conforme as ondas durante o resto da madrugada. Até aí tudo bem, mas pioraria…

Por volta das 5h da manhã sofremos um terremoto. Ele ocorreu entre Padang e as ilhas Mentawai, com 6,5 na escala Richter. Missionários católicos já haviam instalado alarmes antitsunami nesta remota vila, mas eu não sabia qual era a última vez que tinham sido testados.

Saí então na missão de mandar abrir o caminho para subir o morro que fica atrás do acampamento. Resolvemos esperar o mar recolher ou algo parecido para partir rumo ao topo. Nada aconteceu. Mas foi tudo muito tenso.

A princípio, a trupe armou acampamento na beira da praia, mas precisou recuar conforme a maré enchia e a tempestade se aproximava.

A princípio, a trupe armou acampamento na beira da praia, mas precisou recuar conforme a maré enchia e a tempestade se aproximava.

Olhando para o mar você podia ver o caos. Maré muito mais alta que o normal e ondas grandes quebrando disformes, não dava nem pra entender que poderia ter uma onda boa ali.

Quando “acordamos”, pela manhã, o cenário era tenebroso. As línguas de areia entrando cerca de 20 m terra adentro mostravam a fúria da combinação de swell grande, vento maral muito forte e, só ficaríamos sabendo depois, uma king tide que invadiu durante a semana várias praias da Indonésia, incluindo Bali.

Coqueiros inteiros e vários detritos flutuavam em frente ao acampamento. Surgiram novos sofás naturais por toda costa, sendo que o maior de todos travou na nossa frente, em um coqueiro que resistia para ficar em pé.

A correnteza fazia o mar parecer um rio raivoso. A água, antes azul, agora era marrom. O vento continuava sem tréguas, deixando o mar sem nenhuma condição de surf.

Foram 4 dias de vento maral sem fim, e, se não fosse o alto-astral desse time pra lá de especial, as brincadeiras inventadas e as risadas sobre a própria catástrofe, nada teria dado certo. Afinal, persistência é igual a merecimento.

Os protagonistas da barca: Yuri Gonçalves, Lucas Silveira e Yago Dora.

Os protagonistas da barca: Yuri Gonçalves, Lucas Silveira e Yago Dora.

Esta região comporta ventos vindos de sul, leste e norte. Mas foram 4 dias só de vento oeste com chuvas muito intensas. Fora isso, ao limparmos uma vasta área de mato para podermos mover nosso acampamento terra adentro, alguns seres como escorpiões e aranhas resolveram acampar com a gente. Fora estes peçonhentos, convivemos também com humanos, que residiam a cerca de 500 metros dali.

Como de costume na Indonésia, alguns deles fazem de tudo para ajudar, e ajudam, outros tentam, mas só atrapalham e existem também os que querem tirar proveito de toda situação.

Tivemos então que acalmar as intenções de enriquecimento rápido de alguns ao perceberem a quantidade de equipamentos que trouxemos. Não me entendam mal, nenhum deles nunca tentou roubar coisa alguma, apenas resolveram que seria bem mais justo pagarmos um preço bem acima do combinado.

As roubadas eram aliviadas pelas refeições da nossa amável tiazinha cozinheira, produzidas com muito amor e servidas com carinho. Um molho curry muito leve e saboroso deixaria saudades.

Alívio mesmo foi acordar no quinto dia, já no limite do nosso tempo, e encontrar uma manhã sem vento!

As ondas começaram a fazer o
barco 
dançar um break e
rodar em todas as
direções,
arremessando muitos mantimentos
e pertences pra água.

 

LUCAS SILVEIRA

NO MAR: ONDAS PERFEITAS

Esta onda precisa de terral para funcionar na sua melhor condição. Mas só o fato de enxergarmos reais boas condições pela primeira vez em 4 dias de acampamento na selva, pra nós já estava clássico.

Yago, Lucas e Yuri já vinham impressionando muito com surf de linha super power e clean, mesmo com o maral forte deixando degraus por todos os lados, que eram aproveitados como rampas de lançamento de manobras aéreas extremas.

Mas, com condições mais perfeitas, o espetáculo foi montado em um nível superior e várias 10 score rides foram surfadas com maestria e muito, muito, muito talento, há tempos focados e lapidados pelo meu amigo Leandro Dora, o Grilo.

Uma das coisas que mais gostei nesta trip foi ver a dedicação, o respeito e a educação desta equipe da AprimoreSurf, sem nunca deixar de se divertir. Acho que esta fórmula está perfeitamente equilibrada, parabéns a todos. Então, a partir daí, o céu voltou a ficar ensolarado, depois de um pôr do sol mágico, também todo estrelado.

Foram 10 dias entocados na selva das Mentawai.

Foram 10 dias entocados na selva das Mentawai.

E tudo melhorou. A tradicional fogueira foi acesa pela primeira vez na trip, como que em um ritual de boas-vindas à calmaria. Histórias incríveis foram trocadas, intercaladas entre risadas que doem a barriga e lágrimas de alegria. A magia estava de volta.

Então, finalmente, o pesadelo nebuloso foi transformado em um sonho palpável e até uma outra onda de consequência foi surfada pela primeira vez. Pesada, bruta, perfeita. Um presente. Uma dádiva da natureza.

Mesmo com uma variação de ventos, nada impediu nossos heróis de darem um outro show de surf em condições bem pesadas, com fundo bem raso, muito power e tubular, que exigiram, além de muito preparo físico, coragem, determinação e também cautela, por se tratar de uma onda nunca surfada.

Criança é criança em qualquer lugar do mundo. As surf trips sempre reservam boas surpresas, para os lados bom e ruim.

Criança é criança em qualquer lugar do mundo. As surf trips sempre reservam boas surpresas, para os lados bom e ruim.

A viagem tornou-se completa, com aventuras, roubadas, decepções e muitas alegrias sendo vividas com camaradagem, respeito, admiração e harmonia.

Sinto como se este cenário tivesse sido criado de propósito, em conjunto com Deus, no qual contamos com a iluminada proteção do nosso tão amado Anjo da Guarda. Uma provação para a qual fomos submetidos e que veio fortalecer ainda mais uma irmandade.

Não contei que estávamos lá para surfar uma outra onda, melhor e mais tubular, mas não nos foi permitido. Tudo bem, estou esperando esta equipe de anjos guerreiros para voltarmos lá em breve… continuaremos persistindo, sempre. HC

Por volta das 5h da manhã
sofremos um terremoto.
Ele ocorreu
entre Padang
e as ilhas Mentawai, com
6,5 na escala Richter.

 

YURI GONÇALVES