1. DO LIXO AO LUXO: COMO GANHAR O TÍTULO COM DUAS MANOBRAS E DOIS 9.1

O havaiano Sebastian Zietz entrou no CT em 2013, depois de vencer a Tríplice Coroa Havaiana de 2012 e, de lá para cá terminou em 16º, 20º e 26º lugares, respectivamente, sendo rebaixado para a divisão de acesso no ano passado, após perder sua bateria no Pipeline Masters com uma nota 10.

Em 2016, ele contou a sorte e as lesões ou desistências de alguns nomes e ganhou uma nova chance, mesmo sem ter feito por onde, voltando para a lista dos Top-34 como substituto. Começou com um 9º na Gold Coast e um 13º em Bells Beach, até chegar a Margs, onde surpreendeu até mesmo aos mais otimistas e venceu (!) o Drug Aware Margaret River Pro, apresentando um surfe que atendeu bem às necessidades dessa onda, que não permite quase nada, a não ser uma ou duas manobras fortes, para a direita ou para a esquerda e uma bundada na bancada de coral do inside.

E Seabass não precisou de nada além dessas duas manobras, que nesse caso foram iguais: uma rasgada com a mão na prancha, capaz de resumir perfeitamente o termo “cravar a borda”. O cara afundou a prancha na água de maneira impressionante e foi recompensado com duas notas 9.1 (uma nas semi e outra na final). Talvez tenha havido um leve exagero, mas dessa vez o critério foi bem parecido e ganhou quem soube melhor explorar o livrinho de regras.

Parabéns ao havaiano! Do lixo ao luxo! Em apenas três etapas, saiu de integrante do QS para a vice-liderança do ranking e agora fortíssimo concorrente ao título mundial. O outro candidato é Matt Wilkinson (desse não vou falar aqui, porque ainda estou digerindo o fato de ter de assisti-lo com a lycra amarela em minha casa). E o terceiro é Ítalo Ferreira (Esse sim merece um item exclusivo. E fá-lo-ei agora).

Italo Ferreira foi barrado na semifinal do evento pelo campeão Seabass. Em terceiro lugar no ranking, atualmente é brasileiro mais bem posicionado - e que venha o RJ!

Italo Ferreira foi barrado na semifinal do evento pelo campeão Seabass. Em terceiro lugar no ranking, atualmente é brasileiro mais bem posicionado – e que venha o RJ!

2. ÍTALO FERREIRA, O MENINO DE BAIA FORMOSA

Ano passado, quando fez sua estreia na elite, Italote era apontado pela maioria como mais um surfista nordestino que entraria no Tour, talvez permanecesse por ali alguns anos, escrevendo um ou dois highlights em sua carreira, e tchau. O garoto surpreendeu, foi Rookie do ano, assinou patrocínio com a Billabong, é o melhor colocado da marca no ranking (isso disputando contra Joel Parkinson e Taj Burrow) e chegou em 2016 entre os 10 melhores do mundo.

Não saiu mais e é disparado o melhor brasileiro no ranking, com grandes apresentações, dois excelentes resultados e a terceira colocação geral. Em Margaret, pegou muito, mas bateu na trave e segue sua sina de nunca ter vencido uma etapa do Circuito Mundial de Surfe (nem QS, nem CT).

Em 2015, na etapa carioca, também ficou com a terceira colocação, perdendo apenas para Filipe Toledo. Quem sabe não quebra esse tabu no mês que vem e surfando em casa para ficar ainda mais bonito?! Torcida não vai faltar.

3. CAIO IBELLI E JOHN JOHN FLORENCE – O FREGUÊS SEMPRE TEM RAZÃO

Assim como foi com Ítalo, agora é Caio Ibelli que vem surpreendendo. O paulista vem tendo apresentações bem constantes e já está na 6º posição geral, perdendo apenas para Ítalo entre os brasileiros.

Mais uma vez, teve um duelo particular contra John John Florence, que há muito vem sendo apontado como próximo campeão mundial havaiano, e levou a melhor. Mesmo estando em seu primeiro ano, já demonstra ter uma capacidade competitiva infinitamente melhor que a de João João. Tanto em Bells, quanto em Margaret, a virada veio na onda final, numa clara demonstração de que a estratégia vem funcionando.

4. A TROCA DE GUARDA E O FIM DE UMA ERA

Talvez o momento mais emocionante desse período no Oeste Australiano tenha sido a declaração de Taj Burrow de que estaria pendurando a lycra após a etapa de Fiji. Ou seja, depois de 19 temporadas, Taj vai seguir os passos de CJ Hobgood e sair das competições.

É muito estranho ver isso. Há dois ou três anos, sabíamos exatamente quem estaria brigando pelo título e Taj, apesar de nunca ter conseguido (uma pena!) era um deles. No último ano, além de ter ficado de fora de duas etapas, ele passou quase em branco, com apenas um 3º em Fiji. Agora, percebeu que talvez fosse melhor pedir a paz e sair por cima, que ficar forçando a barra. Ainda não temos uma troca de guarda consolidada e nem sei se teremos. Está tudo muito equiparado e vai ser difícil termos novamente uma galera que destoe tanto da outra, como foi com Kelly, Mick, Parko, Taj e Andy.

Eu, pelo menos, sentirei falta de Taj e suas Firewires ou Mayhens voando pelas ondas e tirando tubos intermináveis em picos como México, Snapper e as próprias ondas do oeste aussie, onde ele nasceu e cresceu.

5. NO “FIQUE LONGE DAS DROGAS” MARGARET RIVER PRO, FALTOU EMOÇÃO E SOBRARAM IMPREVISTOS.

No final de 2015 e começo de 2016, a WSL começou a vender sua Liga como uma ode a imprevisibilidade. O vídeo lançado em sua página fazia uma analogia à Teoria do Caos, defendendo a tese de que tudo o que acontece nesse novo Circuito Mundial de Surfe não pode ser roteirizado ou controlado. Tudo é imprevisível!

Bonitinho e tal, mas ninguém poderia imaginar que isso aconteceria de maneira tão aguçada, pelo menos nesse início de temporada. Relato aqui, algumas provas disso tudo: o Matt Wilkinson ganhou duas etapas seguidas, depois de um jejum de sete anos sem títulos; o Filipe Toledo se machucou quando estava quase conquistando o bi na Gold Coast; Gabriel Medina parece ter deixado no Havaí aquela ferocidade da segunda metade de 2015 e chega ao Rio pior do que chegou no ano passado; Kelly Slater aparece com pranchas cada vez piores e só perde; o Mick Fanning parou, o Owen Wright machucou…

No Margaret River Pro, uma etapa que, se não realizada em The Box tende a ser chata maçante e totalmente previsível, tivemos poucas emoções, mas muitas surpresas. Tirando o fato das disputas terem acontecido tarde pra cacete e não terem rolado em The Box, vimos algumas histórias bem diferentes de tudo o que li e conversei às vésperas do campeonato.

Quem diria que Seabass seria o campeão? Ou que um italiano de 18 anos seria responsável pela eliminação de Slater e Adriano de Souza? Ou que com quatro surfistas de apenas 18 anos entre os 36, quem chegaria mais longe seria o segundo mais velho do Tour no momento, Joel Parkinson (35), que terminou em terceiro lugar?

Ninguém diria e ninguém disse, mas tudo isso aconteceu. Fazer o que, né? Como quer a WSL: “You can’t script this” (ou em bom português: a vida sem roteiros).

Bônus 1: A próxima etapa será aqui em casa, no Rio de Janeiro. Ano passado, tivemos o show de Filipinho e aquele Maracanã nas areias da Barra da Tijuca. O que esperar para 2016? Ainda não sei, mas prometo acenar com algumas possibilidades e dicas de onde ficar, onde comer e como se divertir na Cidade Maravilhosa. Fique ligado em minha página no Facebook!

Bônus 2: E o Fantasy? O Brownie do Luiz e a cervejinha da Three Monkeys Beer ficaram para o meu grande amigo Frederico Sampaio, dono do Respeite um Carro a Menos, que também dá uma moral lá na Liga do Comenta Cako. E o cara vai ser pai!! Então, mais do que merecido! Já já, Joaquim estará desfrutando dos maravilhosos brownies. A cerva fica contigo, pelo amor de Deus! E me chama pra brindarmos juntos!

comentacako_PERFIL_FINAL

  • Alison Schneider

    Sempre preciso nas análises. Até agora foi tudo muito imprevisível, mas acredito que no Rio, a história vai ser parecida com a do ano passado.

  • James B

    É isso aí!! E falando em imprevisto no RJ, ano passado tivemos Bede Dinossauro na final!!!! Esse ano, será que vem alguma “maravilha” dessas?? Tipo Ace Buchan na final? Se vier, eu fecho pra balanço e desisto de entender qualquer coisa nessa porra!

  • Julio Adler

    Vamos democratizar essa Cerva!