Eles prometem cruzar mais uma fronteira brasileira da nova ordem mundial do surf: dominar a cena das ondas gigantes

 

Por Kevin Damasio
HC #316, Abril/2016

“Hoje, os surfistas de ondas grandes têm talento. Por isso vejo com bons olhos o caminho para essa nova geração do Brasil.” Carlos Burle, 48, mistura otimismo e apreensão quando reflete sobre o futuro do big surf brasileiro. Otimismo porque o sangue novo chega em um momento-chave do esporte. Apreensão porque a economia brasileira pode ser um empecilho durante o desenvolvimento dos surfistas.

O pernambucano enxerga uma bifurcação na estrada do big surf. “Um caminho é o freesurf tradicional, com o espírito do waterman, aloha, do respeito às tradições, à relação espiritual que temos com o esporte”, observa. “O outro é o profissional, de competição, que sustenta o esporte e cria um ambiente mais justo e com mais reconhecimento para quem se destaca.”

Atualmente, metade dos 24 competidores nas etapas do Big Wave Tour são convidados – o que vira e mexe gera polêmica. Mas a World Surf League, segundo Burle, já abraçou a ideia de instalar um sistema mais justo, que deve ser anunciado em breve. Um circuito paralelo formaria a elite, nos moldes da relação entre QS e WT. Isso não só promete impulsionar a visibilidade do big surf como também enche a nova geração brasileira de esperança, com melhores perspectivas para construir uma carreira profissional no esporte.

Conheça a história, os pontos altos, os perrengues, os desafios e os sonhos de Pedro Calado, Lucas Silveira, Lucas Chumbinho, Lapo Coutinho, Pedro Scooby e Felipe Cesarano, membros de uma talentosa e heterogênea geração, no big surf.

Pedro Calado

Jaws, Maui – 15/01/2016. Foto: Fred Pompermayer

 

BigRiders_Info_Calado“É estranho. Tenho 20 anos e já me sinto respeitado no big surf”, observa Pedro. “Quando os caras me veem remando, sabem que eu vou, que não puxo o bico em cima da hora.” Ele diz que “de pouco em pouco” tem conquistado seu espaço; sua ascensão, na verdade, tem sido meteórica – ele foi finalista da categoria Performance do Ano do XXL 2016.

Em 15 de janeiro, auge do El Niño, Calado roubou a cena ao dropar a bomba cotada entre as maiores já surfadas na remada em Jaws, que arrisca 50 pés de face e indicado à categoria Paddle do XXL. Boiava por uma hora e meia no outside quando a esquerda despontou. Bem posicionado, remou com toda sua força e desceu a ladeira. Na base, drop completo, tentava botar no corte no momento em que viu o espesso lip o envolver num turbilhão de espuma. Não à toa, emplacou sua primeira capa de revista, na HARDCORE de março. “É o ápice da minha carreira por enquanto.”

Na infância, Calado se amarrava em competir, mas raramente se dava bem com a pranchinha. Decidiu estudar e surfar só por lazer. Até conhecer Felipe Cesarano. Em uma promoção, “Gordo” conheceria e entregaria um kit para quem, com até 16 anos, enviasse a melhor foto de surf. Calado ganhou e a relação entre os dois reacendeu o instinto big rider que descansava em Calado desde que ele caíra, aos 14 anos, com uma gunzeira emprestada, em um mar grande em Kon-Tiki, Peru. “Por causa do Gordo virei big rider.”

Gordo convenceu os pais de Calado a bancarem a passagem do filho para a temporada havaiana de 2014/15. Logo na primeira semana caiu em Jaws, em 21 de janeiro. De backside, botou para dentro de um tubo para a direita e rodou com a parede.

Na volta ao Brasil, descolou patrocínio da Furnas e logo foi atrás de um swell gigante em Puerto Escondido, México. Literalmente se jogou na maior onda já vista por lá, em uma sessão de remada, em 3 de maio, finalista do Wipeout do Ano do XXL. Embicou no drop no maior perrengue que já passou. “Saí quicando na onda, ela me engoliu e fiquei um tempão embaixo d’água. Achei que ia morrer. Por sorte, consegui encostar no chão e subir pra superfície.”

Para melhorar a performance nas ondas grandes, Calado e Gordo iniciaram, em outubro, um treinamento que mistura tiros de natação com apneia. “A preparação física fortalece o psicológico. Você se sente mais seguro dentro da água”, observa o carioca, que também pratica yoga. “O segredo é a continuidade, treinar toda semana, para ficar sinistro.” Com isso, Calado evitou que a porradaria após ser absorvido por Jaws, nesta temporada, se transformasse em pesadelo.

O caçula da nova geração tem vários sonhos. Pegar um tubão enorme em Puerto. Estrear em Maverick’s. Desbravar um secret gigante do Chile. Encarar Nazaré. Seu maior objetivo, no entanto, é competir o Big Wave Tour. “Fica difícil, porque o evento é só para convidados.” Mas o sonho de moleque de ser um bom competidor ressurgiu com a história da divisão de acesso para a elite do BWT. Por isso, também tem aprimorado o mental e a técnica, até mesmo nas marolas, nas quais sente lapidar sua linha na onda. “Estou louco para ser convidado para uma etapa do Tour e ver como vou me sair.”

Pedro Calado, 20, fez final em sua estreia no Big Wave Tour, na etapa de Puerto Escondido, México. Ele encarou essa bomba da foto na semifinal. Foto: WSL/Tony Heff

Pedro Calado, 20, fez final em sua estreia no Big Wave Tour, na etapa de Puerto Escondido, México. Ele encarou essa bomba da foto na semifinal. Foto: WSL/Tony Heff

Foi em 24 e 25 de junho que Pedro Calado estreou no BWT. Garantiu o wildcard pela indicação no Performance do Ano do Big Wave Awards 2016. O carioca impressionou. Não hesitou ao botar para baixo nas cracas que superavam 35 pés. A atitude lhe rendeu high scores e a terceira colocação. Nas três baterias que disputou até a final, Calado dividiu o lineup com Carlos Burle, o quarto melhor do evento. Os Brazilian Nuts, como se intitula essa atual geração de big riders brasileiros, chegaram para fazer história.

Lucas Silveira

Jaws, Maui – 27/01/2016. Foto: Tom Servais

 

lucas-silveiraDesde pequeno, Silveira almejava surfar bem, da marola às ondas grandes. Desde os 11, surf trips internacionais o ajudam a lapidar a linha em mares perfeitos. Mas, aos 13, o vulcão da sua relação com o big surf entrou em erupção.

Era 2009. As condições em Waimea não aparentavam estar exorbitantes, então tudo indicava que seria uma sessão igual as que fez em anos anteriores. Contudo, após pegar algumas ondas, entrou uma série gigante que fechou a baía. “Todo mundo que estava no mar tomou na cabeça”, recorda o carioca, hoje com 20 anos, sobre uma época em que o colete inflável ainda não existia. “Foi tipo um avanço no big surf para mim. Vi que aguentava bastante sufoco e fiquei com vontade de encarar ondas cada vez maiores.”

Aos 17, Lucas deu um passo à frente no sonho gigante. Fez sua primeira sessão em Jaws, ciceroneado por Felipe Cesarano. O vento intenso prejudicava as condições do swell. O regular estava em choque durante a queda, mas conseguiu dropar uma esquerda boa. Pe’ahi controlou sua mente. “A partir daí, eu quis ir em todo swell que dava. Em Jaws, evoluo a cada sessão.”

Durante o El Niño, o garoto viveu dias de sonho. O mar de 20 pés havaianos que desbravara em Waimea, no início de janeiro, perdera a graça para ele conforme acompanhava o show em Pe’ahi. Ao saber do swell do dia 27, às vésperas do QS Volcom Pipe Pro que competiria, ele decidiu voar para Maui.

Sentia-se preparado. Acabara de sagrar-se campeão mundial júnior, após um desempenho impecável, nutrido de power surf, em Ericeira, Portugal. Apesar do foco no QS e no Pro Júnior, Lucas focou bastante na preparação para as ondas grandes. Com Leandro Dora,  ele misturou treinos de apneia e resistência com agilidade e explosão, principalmente nas semanas que antecederam seu embarque para o inverno de Oahu.

Na quarta e na quinta-feira daquele swell, pegou as maiores ondas da vida, em Jaws. Entre os cascas-grossas no esporte, alguns nem entraram no mar devido ao vento pesado; outros não conseguiram dropar nenhuma. Diante disso, Lucas se diz satisfeito em pegar duas ondas. Também tomou um dos piores caldos da sua vida, e subiu para a superfície com o nariz sangrando. No dia seguinte, uma leve diminuída no tamanho alinhou o mar. “Deu para me soltar mais, consegui botar para dentro de algumas e peguei umas boas”, conclui. “Foi a sessão dos sonhos.”

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Lucas Silveira – Jaws, Maui, 2016. Foto: Bastien Bonnarme

Atualmente, o foco de Lucas é entrar no WCT. Por enquanto, o big surf ocupa em sua vida um espaço de prazer, de adrenalina, sem a obrigação de perseguir todos os grandes swells. Mesmo assim, não abre mão do desejo de surfar ondas perfeitas – e, melhor ainda, se forem gigantes. Para o big surf, costuma planejar minuciosamente – estrutura, prancha certa, equipamento de segurança, resgate – e releva o peso de carregar as gunzeiras de um aeroporto ao outro. O objetivo de competir uma etapa do Big Wave Tour existe, principalmente se a divisão de acesso se confirmar.

Contudo, Lucas já sabe qual o próximo passo no big surf ao qual está obcecado em dar. “Em Jaws, aquela onda em que o drop é lá fora, com o tubo perfeito que ainda não peguei. É um dos meus objetivos, e, provavelmente, conseguirei em breve.”

Lucas Chumbinho

Jaws, Maui – 21/01/2015. Foto: Fred Pompermayer
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“Nunca tinha visto uma parada tão linda.” Chumbinho ficou maluco na primeira vez que viu Waimea funcionar, em 2010. Um garoto de 14 anos, em sua primeira temporada havaiana, com um gosto por ondas pesadas, moldado no seu quintal de casa, Saquarema. Caiu no mar com uma prancha emprestada. “Peguei altas ondas, só que com muito medo de quebrar a prancha.”

Ele sairia do Hawaii de gunzeira própria. Danilo Couto tinha para vender uma 9’8’’ novinha, pequena para ele, mas perfeita para o jovem que desejava seguir o exemplo do Mad Dog baiano. “Não desencanei totalmente das pranchinhas”, explica, “mas, como vi que eu me sobressaía mais no big surf, segui para esse lado, que amo.”

Aos 20 anos, o dia mais sinistro que o saquaremense já encarou lhe rendeu inscrição no XXL. Jaws, Maui, 21 de janeiro de 2015. Vinte pés sólidos rugiam. O vento leste berrava. O mar subia rapidamente. Do penhasco, Chumbinho, Silveira e Calado esperavam o dia inteiro pelo melhor momento para surfar. Até que as condições ganharam mais força e o trio se lançou ao mar. “Foi bisonha a parada. Ficou uns 40 pés. Gigante”, recorda o goofy, que, de frontside, dropou atrás do pico e correu Pe’ahi com controle, até sair pelo canal.

Nesta temporada, Chumbinho só chegou ao Hawaii em fevereiro. Tarde, mas a tempo de encarar Waimea gigante no dia do Eddie Aikau Invitational e duas sessões pesadas em Jaws. Na primeira, tinha 30 pés sólidos, sem vento. A segunda foi menor, com vento, mas nada que interrompesse o aprendizado. “Foi um treino bom, com air drops, para botar a prancha no pé e sentir como é que se dropa quando tem vento.”

Já em Maverick’s, dividiu o lineup com Danilo Couto, Marcos Monteiro e Alex Martins. Pegou 12 ondas. Não vacou nem tomou na cabeça. Surfar ao lado dos ídolos o ajuda a aprimorar seu surf. “Eles puxam a gente, ensinam, passam técnicas, e a gente acaba puxando eles também, porque veem a gente de maluco dropando as bombas.”

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Lucas Chumbinho – Maverick’s, Califórnia, 2016. Foto: Fred Pompermayer

Fora do mar, Chumbinho se dedica ao trabalho físico, essencial para suportar as descargas do lip. “É como se uma pedra caísse em cima de você.” No nível que o surf de ondas grandes chegou, analisa ele, tal carga d’água machuca mais do que o caldo em si.

Chumbinho está otimista. A provável divisão de acesso pode ser um passo importante na concretização de seu sonho: competir em ondas grandes. Já experimentou a atmosfera singular de um evento desses, no Desafio Mormaii, no Farol de Santa Marta, em 2015. “Teu rival é teu amigo. Acho que essa é a melhor vibe do surf de ondas grandes”, observa. “Alguém sempre olha por você.”

Chumbinho acredita que os brasileiros são raramente convidados para eventos do BWT porque aqui não há ondas gigantes. Com o “QS do big surf”, isso deve mudar. Para ele, o desafio principal é driblar a falta de patrocínio. Hoje em dia tem feito bicos, contado com a ajuda do pai e, sobretudo, se sustentado com a grana que ganha em campeonatos de pranchinha. As gunzeiras ele ganha do shaper californiano Lyle Carlson, e já encontrou a 10’6’’ mágica. “Agora é só esperar. Quando tiver a oportunidade, a gente bota a cara e vai firme.”

Lapo Coutinho

Jaws, Maui – 22/01/2015. Foto: Fred Pompermayer

 

lapo-coutinhoLapinho nasceu com a mesma paixão pelo surf nutrida pelo pai, que ensinava o esporte em uma escolinha em Ilhéus, Bahia. Nas aulas, aos 4, ele aprendeu a pegar onda. Mais tarde,  Elsior Lapo incentivava a transição do filho, da pranchinha para as guns.

Ao passar de ano no colégio, Lapinho ganhava uma surf trip – Noronha, México, Tahiti… já sentia afinidade com mares grandes. “Na água, eu era mais novo que os profissionais”, conta o baiano, hoje com 23 anos. “Não pegava as ondas do dia, mas já tinha atitude.”

Aos 18, passou um mês no México, com Charles, o irmão mais velho, e alguns amigos. Nos últimos dias, um swell de 10 a 15 pés bateu em Puerto Escondido. Lapinho, então, encarou sua primeira sessão de big surf. Pegou a melhor da série do dia. Na volta à Bahia, Danilo Couto o chamou para sua casa no Hawaii.

Naquele inverno de 2012, Lapinho decidiu fazer do big surf sua profissão. Ele vai para o Hawaii desde que o pai mudou-se para lá, em 1997. Enquanto Lapo trabalhava, Couto tomava conta de Lapinho. Aos 19, ele já tinha encarado Phantoms e Outer Reef. O Mad Dog convidou o garoto para surfar Jaws: “Se quiser, vamos, mas vai com calma.” Lapinho só queria sentir a atmosfera, só que não hesitou em remar nas três muralhas que vieram, uma delas dividida com Couto e Burle. Tal adrenalina o move desde então.

Neste El Niño, Lapinho e Chumbinho foram os primeiros a entrar em Waimea em 25 de fevereiro, ao lado de John Florence, que, horas depois, conquistaria o Eddie Aikau Invitational. Depois do campeonato, caíram novamente. No total, ele pegou 15 ondas. “Waimea me despertou uma parada animal.”

Antes, ele fizera as sessões da vida em Jaws. Sentia-se mais preparado, posicionava-se no lugar certo, surfava melhor. Completava as ondas, o que encara como prioridade e fez em 11 de janeiro, quando pegou uma direita que “parecia Backdoor com 20 pés”.

Mas no dia 15 ele não conseguiu fazer uma onda até o canal. Botou para dentro e tomou a lipada de Jaws. Para aliviar o perrengue, o baiano mantém o psicológico fortalecido, “o que acontece se estiver 100% preparado fisicamente.” Surfa todo dia, faz yoga, se alimenta bem, treina funcional, corre na praia, anda de bike. Naquela sexta-feira, ele bateu na bancada enquanto puxava o colete, protegeu a cabeça e se tranquilizou.

Lapinho trabalha para refinar sua técnica. Pretende alcançar isso melhorando sua linha na pranchinha, por meio de trips para picos perfeitos. Também quer aprimorar a leitura de previsões e sente a necessidade de uma estrutura melhor, apesar de já contar com bom suporte dos patrocinadores. “Dei sorte de ter amigos que compartilham a estrutura necessária para o big surf, como dois jets de apoio para cada sessão.”

Lapinho se diz confiante com os rumos do surf de ondas grandes. Entende que as competições têm muito a melhorar, mas “acha alucinante”. Teve sua primeira experiência vencedora no Desafio Mormaii de 2015, no Farol de Santa Marta (SC), e foi convidado para a etapa do BWT em Nelscott Reef (EUA). Lapinho quer integrar a elite mundial. “A nova geração se deu bem, porque a gente vai botar para baixo para representar o Brasil nesses campeonatos.”

Pedro Scooby

Jaws, Maui – 27/01/2016. Foto: Fred Pompermayer

 

pedro-scoobyScooby nunca passou por tamanho apuro como em Maverick’s, em 7 de janeiro, sua estreia no pico da Califórnia. Perdeu as forças logo que vacou. A visão ficava turva. A roupa de borracha rasgou e encheu d’água. Ele não conseguia voltar à superfície, mas manteve a calma no fundo do break gelado e cheio de tubarões. Treino de apneia e preparo físico fazem a diferença nessas situações extremas.

Por isso, o carioca, de 27 anos, não cansa de desafiar Nazaré, Portugal. Em 27 de outubro de 2015, o maior swell da temporada bateu na Praia do Norte. Caras como Garrett McNamara preferiram não cair, diante da perigosa ventania. Mas Scooby foi, com o parceiro de tow-in Carlos Burle. Foi puxado em uma esquerda montanhosa, desceu até a base e fugiu da espuma. Pela bomba, ele foi finalista da categoria Biggest Wave do XXL 2016.

Scooby acumula situações tensas em Nazaré. A pior foi em 28 de outubro de 2013, o dia em que Maya Gabeira quase perdeu a vida. Scooby completou uma esquerda e, ao sair, uma série enorme marchava em sua direção. Tomou cinco ondas na cabeça. “Haja apneia”, ri, “mas, quando está preparado, você se apega na confiança para superar o perrengue.”

Em 2010, aos 22 anos, Scooby encarou sua primeira sessão de big surf, em Puerto Escondido. Assistia, da areia, as bombas de 15 pés quebrarem. Só caiu porque descolou uma prancha emprestada. Apesar de dividir o lineup com feras como Greg Long e Twig Baker, ele não se intimidou: pegou o tubo do dia e foi ovacionado ao sair do mar. “Depois disso, colei no Burle”, conta, “um cara que me ensinou tudo sobre ondas grandes.”

Em Nazaré, a próxima fronteira é encarar um swell gigante no braço. “Quero ver em um dia com 70 pés. A onda quebra cada hora em um lugar. É muito difícil, mas acredito no potencial dos caras. Se forem, vou também.”

Em Jaws, viveu seu terceiro grande momento neste El Niño. Em 27 de janeiro, o mar estava tão grande, que os big riders cogitaram fazer tow-in, mas, no fim, foram no braço. Scooby encarou duas bombas. No dia seguinte, o mar diminuiu, alisou e ele botou para dentro do tubo. “Em termos de evolução, o que mais gostei foi do quanto a galera subiu o nível do surf de remada.”

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Pedro Scooby – Jaws, Maui, 27/01/2016. Foto: Fred Pompermayer

Buscar cada vez mais swells é seu grande objetivo, de preferência com equipes de filmagem, pois “a história do big surf é muito mal contada”. Parte disso, acredita Scooby, é pela falta de grana: “O big surf ainda é mal remunerado para o risco que tem.”

Scooby não se interessa pelos campeonatos de ondas grandes. “Na minha opinião, é muito polarizado. A elite é desorganizada, não correm os melhores do mundo e nem rolam nas maiores ondas.” Desde que deixou de competir o WQS, ele largou o universo das lycras, para o qual não pretende voltar.

O que gosta mesmo é de se provar no freesurf. “Por sermos haoles, os brasileiros têm que esperar e usar a prioridade para pegar as boas que geram histórias. Mas tudo bem, para nós está muito mais fácil do que antes.”

Scooby vê o Brasil bem representado. Falta incentivo, se comparado ao vasto leque de marcas e patrocínios no exterior. “Mas temos que nos conformar e usar isso como força, para acreditar, passar por cima e arrebentar. Brasileiro é isso, vai na raça.”

Felipe Cesarano

Jaws, Maui – 15/01/2016. Foto: Sebastian Rojas

 

gordo“Sinto que estou na melhor fase da minha vida”, revela Cesarano. “Perdi o medo que tinha e entendi como funciona surfar essas ondas de colete. Você estende muito os limites!”

Aos 29 anos, “Gordo” é o mais experiente da nova geração brasileira de big riders. Há dez anos, o carioca desistiu das competições tradicionais. Ostentava certa base nas ondas grandes, pela experiência no Peru, e, se descobriu big rider de fato dos 18 para os 19 anos, ao despontar nos maiores mares de Oahu. Foi para Jaws na sua sexta temporada havaiana – hoje já são onze. Como não tinha parceiro de tow-in, se virava na remada.

Neste inverno em Pe’ahi, sentiu-se à vontade pela primeira vez. “Surfei todos os tamanhos, peguei a maior onda da minha vida, vaquei, tomei série na cabeça, botei para dentro”, recorda. “Apesar de já ter pego mares enormes, só agora entendi melhor a onda e me senti mais em casa.”

A razão para isso foi a energia dos caçulas dessa geração, além dos treinos de natação e apneia que se dedicou antes da temporada, na companhia de Pedro Calado. Ao dropar as bombas, Gordo parou de pensar nas lembranças de vacas sinistras com as quais antes era assombrado por sua memória fotográfica.

Aniversariante do dia, Gordo caiu em Jaws em 15 de janeiro. O mar estava liso, sem vento. As ondas muito velozes, difíceis de completar. De backside, dropou e capotou em uma esquerda que estima ter 35 pés. “Trinta segundos de porradaria, o medo era quebrar meu corpo ao meio”, define. “O strap arrebentou, tomei mais um caldo e levantei.” Gordo classifica Jaws como “o extremo do extremo”, onde o perigo maior é a pancada do lip.

O carioca sente que precisa melhorar as condições física e mental, além dos equipamentos – principalmente as pranchas. “Falta uma agilidade. Chegar no primeiro swell e já sentir o que está certo, o que precisa melhorar, e fazer outra com os ajustes, para o segundo swell”, analisa. “Hoje a gente tem um atraso de uma temporada inteira.”

Dificuldades à parte, Gordo diz que a nova geração brasileira representa, bota para baixo e é respeitada não só pelo que faz, mas também pela reputação herdada de Burle, Eraldo Gueiros, Rodrigo Resende, dos Mad Dogs e de muitos outros big riders conterrâneos – e isso pesará a favor caso o sangue novo tenha oportunidade no Big Wave Tour.

No circuito de 2011, Gordo disputou as etapas do Chile e do Peru e terminou o ano em sexto no ranking. Mas na temporada seguinte foi impedido de competir. “Uma lista diferente, uma bagunça”, lembra. “Com a entrada da WSL, a parada ganhou uma projeção muito maior, está ficando mais profissional. Só que está afunilando, muito mais difícil de entrar.” Em sua visão, um circuito de qualificação democratizaria o BWT.

O carioca está focado nos treinos e na preparação física. Enxerga as competições como uma forma de evoluir, em um mar clássico, com poucas pessoas na água, envolto em segurança. “O surf de ondas grandes é uma parada muito mais pessoal. Mas, como todo esporte, a competição é o que define ídolos, traz patrocinadores e alavanca o esporte”, reflete. “Se rolar uma divisão de acesso, uma parada certinha, com certeza vou tentar correr e buscar meu lugar.” HC

 

Esta reportagem foi originalmente publicada na Revista Hardcore #316, edição de abril de 2016