Polaroids, noseriding e outras viagens: Pôr do sol esmeralda

Leia a coluna da longboarder campeã, publicada na edição de junho da HC

Chloé Calmon, Nicarágua. Foto: Arquivo Pessoal

Por Chloé Calmon
HC #329, junho/17

Na correria dos dias de hoje, deixamos passar alguns detalhes, coisas pequenas, mas preciosas. E quando nos tocamos para parar no tempo e observá-las, vemos o quão importante é dar valor às simplicidades. Apreciar um pôr do sol, observar os pássaros voando, o vai e vem da maré, a cor, textura e temperatura da areia, um momento são fazendo um esporte, alguns momentos sadios com seus pais e amigos… e por aí vai. 

Em maio, tive a oportunidade de conhecer um país novo, a Nicarágua. E desta vez, tive a companhia do meu pai, Miguel Calmon, que considero um legend do surf brasileiro. A última vez que viajamos para pegar ondas juntos foi há 5 anos, para o Hawaii. Eu, em meio à várias viagens, campeonatos e treinos; e meu pai entre os negócios e a rotina do trabalho, quase nunca nos encontramos mais nessas andanças em busca de ondas pelo mundo. Sentíamos um certo “vazio” por essa realidade, já que foi ele quem me introduziu ao esporte, e por ser a pessoa mais fissurada que eu conheço.

Então, ele trocou o terno pela bermuda, eu troquei o treino pelo freesurf, e juntos embarcamos para Manágua, capital da Nicarágua. Do aeroporto foram mais duas horas de carro até chegar ao Mukul Resort, localizado na costa esmeralda, em frente à Playa de Manzanillo.

Chegamos a tempo de pegar um final de tarde e encerrar o primeiro dia de viagem. Nem olhamos o mar, preparamos as pranchas e fomos para a praia. Ficamos surpresos com as marolas mexidas pelo vento maral, mas encantados com a beleza do pico. O sol dava um toque dourado à montanha e às pedras no canto esquerdo da praia. Nos dois primeiros dias, encontramos condições não tão boas quanto esperávamos, a ventania forte deixava as ondas irregulares e com a parede curta. Por um certo momento fiquei frustrada por não encontrarmos de cara ondas tão boas, mas quando olhei para o meu pai com aquele sorriso enorme no rosto, falando em bom tom: “altas ondas”! E correndo para a água, na mesma hora a minha visão mudou. É que o objetivo ali não era tanto pegar ondas perfeitas, e sim aproveitar esse momento tão valioso entre pai e filha.

Um céu tão colorido, nenhuma nuvem…
Subi em um tronco abandonado na praia e observei aquele espetáculo da natureza que parecia interminável…

Eu, ao ver como o olho dele brilhava só de estar na água, comecei a observar e apreciar as coisas simples. Estávamos rodeados por uma natureza exuberante: o contraste entre as areias escuras, o azul do mar e o verde das árvores. Várias espécies de pássaros paravam no nosso bangalô na praia para averiguar o que estávamos comendo (no primeiro dia, sem saber, deixei meu café, na manhã livre, na mesa e eles vieram à mesa e comeram a metade). 

O pôr do sol na costa esmeralda da Nicarágua ficou marcado na minha memória como uns dos mais bonitos que já vi. Um céu tão colorido, nenhuma nuvem… Subi em um tronco abandonado na praia e observei aquele espetáculo da natureza que parecia interminável… Comida maravilhosa, hospitalidade incrível e o lugar mais mágico ainda. E, assim, conforme os dias foram passando, fui deixando de lado a pressão e as cobrança. Foquei nas férias com o meu pai e tudo parecia muito mais bonito à esse olhar. E quando você se sente satisfeito com o que tem, tudo novo que vem é um presente. 

Utilizar o surf como forma de distração, um tempo “off”, muda a maneira de olhar as coisas. Relaxar, não fazer cobrança de performance, manobras, pegar as melhores ondas… só surfar. Na real, sorrir antes de tudo.

Nos últimos dias fomos premiados com um swell incrível de 6 pés, fazendo uma máquina de esquerda extremamente perfeita. Horas e horas dentro d’água, braços pesados, corpo queimado pelo sol forte… 

Voltamos para o Rio cansados de tanto surfar. Eu, de volta à minha rotina de treinos; meu pai, de volta ao escritório. Mas, com certeza, com a cabeça limpa, alma leve, e risos ao rever uma foto da viagem. Agora voltamos aos grandes desafios do nosso dia a dia, energizados e prontos para ir em frente, já pensando nas próximas férias juntos.

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