Texto e fotos de Diogo D’Orey
HC #327, abril/2017

 

A nossa intenção aqui não é destruir mais um paraíso, mas sim contar uma estória sobre como fomos tratados por meia dúzia de locais numa ilhazinha no meio do mar, como se fôssemos velhos conhecidos voltando para casa.

Tudo começou em Portugal, quando eu, Eric de Souza e Ian Cosenza nos unimos à procura de tubos e ondas novas. 

Eu já havia ouvido falar das ilhas portuguesas dos Açores e da Madeira, mas o estilo das ondas de lá nunca me atraiu muito. Pointbreaks de ondas longas e volumosas não é bem o que um fotógrafo especialista em Fisheye, combinado com os melhores tube riders do mundo, procuram.

Canárias era uma opção, mas o localismo lá é pesado e existe hoje em dia um movimento proibindo fotos. E então, cortamos da lista. Ficamos pensando aonde poderíamos ir além desses destinos, saindo de Portugal, sendo economicamente viável.

Esperando o momento certo. Vimos que uma grande bomba meteorológica apareceu no Hemisfério Norte, e que seria perfeito ficar estrategicamente em Portugal, principalmente se a previsão não indicasse ventos marais de 30 km/h. E a equação aconteceu. Havia chegado a hora de ir em busca da nossa felicidade. Trinta horas depois, aterrissávamos nessa pequena ilha. 

Ian Cosenza na esquerda, Eric de Souza na direita.
Há algo melhor do que surfar a perfeição em uma pequena ilha,
cujos moradores mal sabiam para que aqueles tubos serviam?

Do avião dava pra ver o recorte geográfico e as linhas brancas em formato de triângulo por todos os lados. Alugamos nosso carro – isso foi fácil. Já casas ou hotéis eram quase inexistentes, e por isso fomos batendo de porta em porta para ver se alguém tinha um quarto parar alugar. Mais algumas horas, conseguimos alugar um quarto que parecia um estábulo, numa fazenda perto de onde achávamos que existia um daqueles triângulos mágicos.

Pegamos lenha, fizemos uma fogueira e dormimos com a esperança de que todo aquele esforço fizesse sentido nos dias seguintes.

Acordamos no meio da noite com ventos que pareciam querer levar a casa embora… A pergunta na calada da noite era: “Isso é terral ou maral?”

Para nossa alegria, acordamos para um dia de inverno com céu azul e vento. E para nossa sorte, era terral.

Ian Cosenza (acima) testa o backside na onda sem nome. Se o pai, Rico, desbravou os principais picos do planeta, o filho, Eric de Souza (abaixo), também tem ido atrás de ondas novas.

Chegando na onda, dois pescadores locais nos perguntavam num francês incompreensível (até para mim, que vivi na França) o que fazíamos ali. Num inglês que eles não entendiam bem, misturado com mímica, conseguimos explicar que estávamos ali para surfar – o que no ouvido deles pareceu uma piada. Pelo que eu entendi eles nunca tinham visto alguém surfar por ali.

A onda era um A-Frame em cima de uma bancada de pedra bem rasa. A maré já estava descendo e em meia maré já era possível ver os degraus na onda e alguns bicos de pedra fora d’água. Pelo caminho, resolvemos explorar mais um pouco a ilha, comprar mantimentos e comida e voltar na hora da subida do mar.

Ao voltar, não conseguíamos acreditar no que estávamos a presenciar. Tubos para os dois lados, baforadas, linhas marchando no horizonte… Era a certeza de uma tarde especial.

Ian Cosenza, na esquerda, e Eric de Souza,
na direita, dividiram reflexões e os triângulos
secos do inverno no Atlântico Norte.

Surfamos até escurecer, fomos entendendo a onda a cada série que passava. Nos blindamos do frio e do perigo das pedras, e por algumas horas vimos e pegamos tubos atrás de tubos.

Depois da sessão, fomos recebidos em terra pelos moradores locais de uma forma muito amigável. Eles estavam realmente felizes e excitados por nos verem surfar ali. E naquele momento entendemos o que estávamos vivenciando – eu, que já viajei muito pelo mundo, nunca tinha sido tratado nem recebido daquela forma. Nos questionávamos o porquê dessa genuína hospitalidade. Era quase que “bom demais pra ser verdade”.

Durante a trip, o vento terral alisou a onda oca – cenário propício para Eric botar em prática o talento que corre no sangue dos De Souza (acima). Ian Cosenza (abaixo) envolvido pela felicidade plena ao se entocar no desconhecido, em sessões “privadas” que duravam até o entardecer. 

E naquele exato momento fizemos um pacto: nunca dividir nem promover aquele pedaço de paraíso no meio do oceano. Reforçamos a ideia interna de que existem muitos lugares ainda para serem explorados, e que se depender de nós, esses segredos continuarão bem guardados. 

Esperamos, do fundo do coração, que esse relato te faça olhar o Mapa Mundi e ir atrás dos seus sonhos. Porque Uluwatu, Superbanks, Lobitos, Pipeline e outras ondas famosas deixaram de ser sonho para mim quando foram encontradas, nomeadas e exploradas por décadas.

O nome dessa onda até agora ainda é desconhecido. E se depender de nós, continuará assim.

  • lOCAL BOY

    “bom demais ser verdade” é essa historia toda qe acabam d inventar! os locais sabem surfar muito bem e sabem muito bem o que é fazer grandes tubos nessa onda!!