Publicado na HARDCORE de novembro (#323)
Texto: Steven Allain

 

Viajar é sempre uma lição. Uma aula em novas culturas, perspectivas e maneiras de encarar o mundo. Além de expandir horizontes, cair na estrada nos mostra como o resto do mundo vê nosso país e nosso povo. E esse é um processo que pode ser interessante – ou desconcertante. Em geral, todo mundo gosta de brasileiros. Somos alegres, descontraídos e sempre prontos para nos divertir. A imagem que a maior parte do mundo tem do Brasil é aquele conhecido clichê: samba, futebol, praias, bundas e muita diversão. E mesmo que essa seja uma percepção superficial e incompleta, ao menos ela é positiva.

No surf, a história é outra. Somos a ovelha negra do surf mundial. Uma nação de brutos mal-educados que abusa da agressividade para dominar lineups mundo afora. Falamos alto, surfamos em bando e não baixamos a bola para ninguém. Fodam-se prioridade, etiqueta e bom senso.

Nós sabemos que essa reputação é exagerada e injusta. Mas será que nossos irmãos surfistas ainda nos veem dessa maneira nos dias de hoje? A HARDCORE conversou com quatro profissionais estrangeiros do mundo do surf para descobrir.

Confira a seguir a primeira parte da matéria, que será publicada ao longo de cinco partes nas próximas semanas.

Sean Doherty (australiano, editor da Surfing World), Jamie Brisick (americano, ex-surfista profissional, antigo editor da Surfing e escritor)Chris Binns (australiano, ex-editor da Surfing Life, atual editor global de surf da Red Bull) e Ryan Miller (americano, fotógrafo que cobre todas as etapas do Circuito Mundial) respondem:

 

“Como a maioria dos surfistas estrangeiros vê os surfistas brasileiros?”

 

Sean Doherty (australiano, editor da Surfing World):

Acredito que a maioria dos surfistas são viajados o suficiente nos dias de hoje para reconhecer que generalizar o surfista brasileiro, australiano ou de qualquer lugar, é um grande erro.

Quem viaja sabe que cada indivíduo é diferente. Você vai ter lendas e cuzões em ambos os grupos. Eu não acho que no passado houve uma grande animosidade entre os dois grupos, de qualquer maneira. A realidade na água é muito diferente da percepção que você tem ao ler seções de comentários online.

Com a exceção de Bali e Rocky Point, eu realmente nunca vi um grande problema entre brazucas e estrangeiros. Acho que preconceitos antigos praticamente desapareceram e os surfistas australianos entendem os surfistas brasileiros muito melhor hoje, mas eles nunca vão entendê-los totalmente, pela simples razão de que nunca vão para o Brasil. Você nunca vai entender um lugar totalmente até que você vá para lá, e eu posso contar em uma mão o número de amigos australianos – e americanos e sul-africanos – que estiveram no Brasil para uma surftrip. É simplesmente muito longe, especialmente quando se tem altas ondas na porta de casa.

 

Jamie Brisick (americano, ex-surfista profissional, antigo editor da Surfing e escritor ):


Os surfistas brasileiros têm sido estereotipados ao longo dos anos como agressivos e fominhas.
Acredito que essa reputação nasceu no North Shore, quando havia brigas entre surfistas havaianos e brasileiros. E o rótulo pegou.

Em 2015, Ítalo Ferreira surpreendeu o mundo e abocanhou o título de Rookie of the Year. Neste ano, o potiguar começou bem, com semifinais em Bells (foto) e Margaret. Foto: Trevor Moran

Chris Binns (australiano, ex-editor da Surfing Life, atual editor global de surf da Red Bull):


Como você define o surfista brasileiro ou australiano nos dias de hoje?
Não sei se definições homogêneas existem. No geral, os australianos são muito rápidos para julgar e condenar alguém no lineup, e por causa do número grande de brasileiros na água, suas personalidades fortes e sua fome de ondas, tornam-se alvos muito fáceis.

Se você surfar em Bali atualmente, provavelmente vai perceber que é muito mais difícil pegar onda quando os australianos radicados por lá (e que se creem locais) estão na água, do que quando tem um monte de brazucas no mar. Tendo dito isso, qualquer um que passou algum tempo nas Mentawai conhece aquele sentimento de desolação quando um barco cheio de brasileiros aparece no horizonte. Você sabe que, antes mesmo de ancorar, uma dúzia de brazucas vai pular na água e começar a te dar a volta – acabando com seu dia de surf.

Ryan Miller (americano, fotógrafo que cobre todas as etapas do Circuito Mundial):

No meu círculo de amigos, pelo menos, as pessoas se preocupam muito menos do que você pensa. A maioria dos meus amigos surfistas americanos mal sabe quem ganhou o último campeonato. Eles não têm uma opinião formada sobre surfistas brasileiros.


Na próxima matéria, Sean, Chris, Jamie e Ryan respondem: “No universo competitivo, como são vistos os atletas brasileiros?”


Mais sobre a HARDCORE #323 aqui.

  • Fesurfattack

    Ok vamos acreditar