Nos últimos anos, a escalada nos ataques de tubarão tem feito o mundo repensar as medidas de segurança

Texto Kevin Damasio / Hardcore #313

 

A manhã de 9 de outubro seria outra qualquer para Colin Cook, não fosse a surpresa que teve em Leftovers, no North Shore de Oahu. Por volta das 10h30, o americano esperava a série quando um tubarão tigre abocanhou sua perna esquerda e o puxou para baixo. O surfista, de 25 anos, só foi solto quando socou o focinho do animal com o punho direito. A essa altura, já tinha perdido a perna esquerda na altura do joelho. Cook saiu do mar na sequência, ajudado pelo amigo havaiano Keoni Ashley. Na areia, fizeram um torniquete com o leash, que, segundo os médicos, salvou a vida dele, uma das oito vítimas de ataques de tubarão, no Hawaii, em 2015 – o mesmo número de 2014.

Em 2015, houve muita polêmica entre humanos e os predadores marinhos. O site Tracking Sharks calcula que, até novembro, foram 94 ataques, oito fatais – números ainda não confirmados pelo International Shark Attack File (ISAF).

Dos 5700 casos registrados de 1580 a 2014, segundo a ISAF, 2778 foram “unprovoked shark attacks”, incidentes dentro do habitat do animal, sem provocação da vítima. O que chama atenção é o crescimento de casos a cada década, desde 1900. De 2005 a 2014, foram 702 ataques (65% a surfistas), sendo que 47 vítimas não resistiram.

No relatório do ISAF de 2014, George H. Burgess explica que o aumento de ataques se deve ao crescimento da população humana e ao maior tempo passado pelas pessoas no mar. Apesar disso, as fatalidades devem diminuir, como aconteceu nos últimos 11 anos, “conforme evoluam as práticas de segurança e atendimento médico, e seja maior a consciência pública sobre situações de perigo em potencial”.

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Fato é que muitos surfistas não deixam de pegar onda por quebrarem em áreas infestadas de tubarão. Dias antes de cruzar com o animal na final da etapa de Jeffrey’s Bay, Mick Fanning jantou com Shannon Ainslie, sul-africano vítima de dois ataques – o primeiro envolvendo dois tubarões-brancos. Perguntou se era perigoso surfar em Supertubes. Apesar dos riscos, manteve a tradição de ser o primeiro a entrar na água.

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Mas não se trata apenas de cair no mar por conta e risco. Nas Ilhas Reunião, a sequência de 17 ataques, que ocorrem desde 2011, tem provocado a ira dos locais. Por um tempo, o surf só acontecia em sessões nas quais mergulhadores com arpões posicionavam-se no outside, para garantir a segurança do crowd, amparados também por boias com sonares. Mas, em abril, não havia ninguém para defender Elio Canestri, de 13 anos, que não resistiu a um ataque. O surf chegou a ser banido na ilha francesa.

Nos últimos meses também houve revolta em New South Wales, no leste da Austrália. Os 13 incidentes em Ballina botaram pressão no governo local. Depois de um congresso internacional sobre tubarões, em Sydney, o ministro Niall Blair anunciou um plano de proteção e prevenção orçado em 16 milhões de dólares australianos.

Com previsão de início neste mês, o programa envolve o sobrevoo integral de drones e helicópteros, sistema de sondas com boias inteligentes – que identificam até a espécie de tubarão – e seis redes de barreira ecológicas, que não oferecem o risco de animais marinhos se enroscarem. Os alertas serão emitidos em tempo real para o SharkSmart, app de smartphone e tablet, e para 20 estações de monitoramento – de início, serão 10 na North Coast, de Tweed Heads a Forster, passando por Byron Bay, Lennox Head, Ballina e Evans Head.

Foi uma medida bem aceita por ambientalistas, que temiam a possibilidade de o governo adotar a caça aos tubarões, como acontecia em West Australia até meados de 2015. Os ataques amplamente divulgados na mídia dão a impressão de que há superpopulação de tubarões, mas o que acontece é o inverso. A cada ano, em média, 100 milhões são mortos, vítimas, principalmente, da sobrepesca e da prática chamada finning – na qual cortam-se as barbatanas para servir pratos afrodisíacos. Com isso, houve declínio de 90% dos maiores predadores marinhos, e hoje 74 das 465 espécies de tubarão, estão em risco de extinção, de acordo com a International Union for Conservation of Nature.

Esse declínio traz sérios riscos para o meio ambiente. Um estudo publicado em setembro, na Nature Climate Change, afirma que os tubarões são fundamentais na luta contra o aquecimento global. O abate e a pesca excessiva dos predadores marinhos têm resultado na abundância de tartarugas, arraias e caranguejos. Tais presas alimentam-se da vegetação marinha que forma os mais poderosos ecossistemas de carbono azul, capaz de “armazenar e capturar carbono em uma taxa 40 vezes mais rápida do que florestas tropicais como a Amazônia e vão guardá-lo no solo por milhares de anos”, explica Peter Macreadie, coautor do estudo. Ele alerta que perder 1% desse ecossistema resultaria na liberação de 460 milhões de toneladas de carbono por ano, o equivalente à emissão feita por 97 milhões de carros. “Tubarões, acredite ou não, estão ajudando a prevenir as mudanças climáticas”, afirma o cientista.

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