Entrevista: Fábio Gouveia e o passado, o presente e o futuro do surf nacional e mundial

Por Kevin Damasio
Fotos Oswaldo Pok (retratos) e James Thisted (ação)
HC #317, maio/16, especial de 27 anos

No meio do caminho rumo ao título mundial, um grande objetivo guiou Adriano de Souza, concluído em Bells Beach, em 2013: superar as quatro vitórias de Fábio Gouveia no Circuito Mundial, então o brasileiro que mais subira ao topo do pódio.

Nas catorze temporadas em que o paraibano, de João Pessoa, integrou a elite mundial (de 1988 a 2002, exceto em 97 e 98), o caneco máximo do surf parecia distante, apesar de ter sido o quinto melhor do WCT em 1992. Cravar o nome do Brasil no mundo era mais importante, um degrau fundamental para pavimentar o caminho aos futuros atletas conterrâneos.

Ao lado de Teco Padaratz, Fabinho esteve na vanguarda de uma geração crucial para o lugar que o surf brasileiro ocupa hoje – o topo do mundo. Trabalho pesado, suado, focado, na raça; uma navegação em mares revoltos e desconhecidos – tudo para que o Brasil ganhasse respeito na elite e vislumbrasse maiores conquistas. “Fia” inspira tanto os surfistas do momento como os talentos que estão sendo lapidados. De certo será lembrado por décadas como uma lenda do surf brasileiro.

Freesurfer profissional, shaper e avô, aposentado das competições desde 2003 – Fabinho poderia se dedicar apenas a assuntos pessoais, mas não é isso que mostra na entrevista a seguir, dotada de um olhar crítico, sem perder seu peculiar bom humor. O legend preocupa-se, e muito, com a estrutura que a novíssima geração tem encontrado, além de refletir a respeito do presente e do futuro de um esporte em franca ascensão.

Fabinho, Joaquina. Aliado à garra,
o estilo que o consolidou como legend
permanece até hoje, aos 46 anos.

Como vai a vida de avô, Fabinho?

Rapaz, a netinha tá morando em Maresias. Quase a gente não viu a Malia, porque nasceu em São Paulo e vai morar lá pelo menos esse ano. Assim, a Mayara [esposa do Ian] fica mais próxima da mãe. Já o Ian viaja direto, e aí aluga uma casa em um condomínio vizinho ao Gil Hanada [pai da Mayara]. A gente viu a Malia quando nasceu e nos dois dias em Barbados em abril. Agora eles vêm passar o início de maio em Floripa. Mas é um negócio muito doido. Quando tu vê, já vai passando o filme.

Na tua cabeça mudou alguma coisa?

Cara, na real, não. Só mesmo esse lance de como a vida é engraçada. E temos que aproveitar tudo, porque, pô, passa muito rápido. Já sou avô… (rindo) parei de competir praticamente outro dia, nessa batida de Circuito Mundial. É muito massa, porque família é tudo, a essência da vida.

Vai ser surfista também?

O Ian já molhou os pezinhos dela em Maresias, já tirou onda dizendo que ela gosta de água. Mas aquela coisa: filho de surfista, se tu não força, no mínimo acaba gostando de mar, pegando as ondinhas na maioria das vezes. A gente foi pra São Paulo. Fiquei esperando até ela nascer, em 23 de janeiro, para depois ir pro Hawaii. Adrenalina danada.

E essa temporada havaiana, como foi?

Tinha altas ondas. Eu passei 28 dias. Acho que foi uma das melhores temporadas em constância de swell. A prancha que mais usei foi 9 pés. Claro, às vezes usava porque queria, na real eu gosto de surfar com prancha grande. Caí bastante em Sunset com as gunzeiras, até mesmo Pipe surfei com uma 7’4’’. Apenas dois ou três dias surfei com prancha pequena. Só que, pô, cara, acabei me machucando no melhor swell. Foi naquela primeira chamada pro Eddie [10 de fevereiro], que não rolou.

“Hoje em dia, o parâmetro máximo
é o titulo mundial
– e isso é muito
legal, serve como combustível.”

Como se machucou?

Estava naquela expectativa de acordar de madrugada pra cair em Waimea antes de começar o campeonato. O mar não tinha subido ainda e fiquei naquela, esperando. Aí entrei por volta do meio-dia e meio. “Rapaz, esse mar vai subir. Vou entrar logo, porque depois, se estiver muito grande e eu não conseguir entrar, que nem o Kelly Slater…” (risos). Aí entrei e tal, tô começando a pegar as ondas, o mar subindo… já estava me encaixando bem, evoluindo. Aí veio uma série maior, peguei ela mais atrás. Quando desci, um cara soltou a prancha embaixo de mim. Não teve como desviar. Varei a prancha dele, tomei a maior vaca e acabei batendo a minha coxa numa das quilhas. Perdi três quilhas nessa vaca: duas na prancha do cara e uma na minha coxa. Aquela porrada me ferrou. Tive que sair, levei um pontinho ainda, mas foi mais o “machucão” mesmo. Fiquei uns três dias mancando, uns quatro fora d’água e aí perdi esse swell. Assim, 28 dias e quatro swells bons foi excelente. Mas meu objetivo era ir para Jaws, e acabei não indo. Vamos ver se na próxima temporada eu vou.

Já caiu em Jaws?

Não, cara. Estou nessa batida de querer ir lá, para ver qual é. Não nesses dias gigantes. Quero ir devagarzinho, num dia menor, porque tô nesse lance de shapear, me amarro em surfar com prancha grande, tenho feito umas gunzeiras e preciso testar lá.

Hoje em dia, como é a vibe entre os brasileiros e os locais no Hawaii?

A relação tá bem melhor do que no passado. Quando comecei a ir para o Hawaii era uma época meio sinistra. Houve algumas confusões no começo da década de 80, que repercutiram um pouco na nossa geração. Tinha muito desse estresse de neguinho botar pra fora d’água. Mas aí foi aquela coisa: pintou o jiu-jitsu, e também aquele envolvimento do povo havaiano com brasileiro, nego casando aqui, casando ali, e melhorou. O brasileiro é muito bem aceito hoje em dia. Enquanto o cara vai lá e respeita, não se mete em confusão, vai tudo bem. Dá confusão quando um invade o espaço do outro. Mas acho que é a melhor época de Brasil e Hawaii. A galera do big surf botando pra baixo. Os caras ganhando título – e no Hawaii –, Mineirinho e Medina. O cenário todo conspira pra um lance bem positivo.

Temos quatro potências do surf: Brasil, Austrália, Estados Unidos e Hawaii. Pensando nas últimas temporadas e no futuro, quem você considera que vai dominar esse cenário?

A Austrália tá preparada sempre, porque os caras têm o surf no DNA. Toda praia tem seu clube de surf e competições entre eles mesmos. Isso por si só já é um aparato muito positivo, um quer superar o outro. Os caras serão sempre campeões em potencial, independente de quem esteja à frente. Por outro lado, o Brasil tá nessa corda toda, com a galera que foi campeã, com o título máximo a perseguir. Antes era “vamos ultrapassar os feitos de Fábio Gouveia, de Teco Padaratz; vamos ultrapassar o feito de Vitinho.” Agora, meu amigo, tem que ganhar, né (risos). Lembro que Mineirinho falava: “Quero bater o recorde do Fabinho, vencer cinco etapas.” Eu tinha vencido quatro. Então hoje em dia o parâmetro máximo é o título mundial – e isso é muito legal, serve como combustível.

Antigamente, quando a gente se profissionalizou, nosso propósito era fazer o melhor pelo Brasil, mudar a imagem, fincar a bandeira. Agora, o Brasil tem essa força: neguinho precisa buscar o lugar mais alto do pódio para dar sequência. E realmente tem uma geração muito boa – essa no circuito e outros moleques novos também, surfando pra caramba, que vejo por aí: o Dudu Motta, o Mateus Herdy, o Samuel Pupo. Eu vejo que o Japão está crescendo de novo. Tem muita gente nova, de família rica, e os caras estão investindo. Esse que está no CT e foi pra Califórnia [Kanoa Igarashi] – o pai fechou as paradas dele para deixar o moleque seguir carreira. Sempre vai ter uma nação acelerando e, em virtude dela, os outros ficam mais abaixo. E é aquela coisa: a América tem que ir atrás de Kelly Slater (risos). O Conner Coffin surfou pra caramba em Bells, tá na pilha. Tem sempre muita disputa, mas essa é uma disputa legal para dar um revival no circuito. Tem uns caras perto de parar. Mick Fanning surfando pra caramba, mas quer dar descanso. As coisas estão mudando. É um bom momento. Foi excelente esse atual estágio do Brasil, para dar uma balançada. Acho que todo mundo na WSL adorou isso.

Em Floripa, o paraibano de João
Pessoa encontrou seu recanto
para a vida de freesurfer e shaper.

Entre Ítalo Ferreira e Filipe Toledo, quem está mais preparado para o título?

Por estar morando na Califórnia e com essa ascensão rápida, talvez o Filipinho esteja um pouco mais cotado. Infelizmente, agora, ele se machucou. Só que o Ítalo, cara, é guerreiro, é um moleque esforçado que tá mostrando que evolui toda hora. Não tem muito parâmetro para ele, de dizer: “Ah, ele não vai bem nessa onda, não tem experiência”. Ele vem trilhando um caminho sólido. Fiquei impressionado com ele nas ondas mais fortes, no evento em Fiji, em Pipeline. Ele vai ser um osso duro de roer, sempre nesse pelotão de frente. Fica até complicado escolher… são dois enormes talentos. A gente vê o Filipinho um pouco à frente, pela exposição, mas sei que o Ítalo também já tá com uma base boa de tubo. Vai ser briga grande entre os dois.

Como é tua relação com o Mineiro?

O Mineiro era atleta da Hang Loose, mas, quando começou a ascensão ao Circuito Mundial, ele acabou saindo e a gente perdeu o contato. Tive algumas competições com ele no SuperSurf, no Brasil Tour (um circuito paralelo), nos regionais. O Mineiro enaltecia o circuito. Aquelas disputas internas com a galera foi um aprendizado muito bom para ele, contra alguns Tops – eu, Peterson Rosa, Guilherme Herdy, não lembro se o Teco Padaratz corria. Na época foi bom, porque ele nos incentivava, era um combustível para corrermos atrás. Tive uma vitória em cima dele em um evento da Rip Curl, no Guarujá, que foi um estadual válido para o Brasil Tour – foi bom pra caramba (rindo), estava a torcida dele lá, todinha, aí eu virei na última onda. Também teve um evento em Ubatuba que fiquei em segundo e ele venceu. Disputas boas.

Ele já tinha esse perfil de atleta, de garra, de sempre procurar evoluir?

Já, já. Meio de intimidar, de agressividade na água. Foi o que o levou a esse estágio que chegou, ao título mundial.

Como foi ver o Mineiro e o Medina conquistarem o título mundial?

Cara, foi legal pra caramba. Quando comecei a competir, eu não pensava muito em título mundial; a gente foi aprendendo as paradas no meio do caminho, com uma possível vislumbrada ao título mundial depois, mas até um pouco tarde. Não tive aquela preparação para tal. O Teco até teve mais. Ver o Mineirinho percorrer o caminho foi muito legal, porque ele aproveitou muito de uma base que a gente percorreu. E foi um cara guerreiro, porque em um momento de troca de guarda ficou só ele ali na frente, no circuito. Depois teve o título do Medina, que deu um gás a mais para o Mineiro, que já estava ali há um tempo também. Um [Medina] tem a competitividade da chegada, da jovialidade, e o outro [Mineiro] conta com competitividade do trabalho, de correr atrás, como se fosse um líder.

Você falou dessa novíssima geração, com Dudu Motta, Samuel Pupo, Mateus Herdy. Que estrutura existe para esses novíssimos atletas se desenvolverem?

Acho que a estrutura que teve para essa galera que tá aí [no WT] foi muito boa. O circuito brasileiro amador era muito forte, os regionais também. Só que agora… não sei como está esse ano, mas no ano passado estava fraco, meio sem credibilidade. E aí é aquela coisa: repercute num buraco de preparação, de investimento. Essa galera atual chegou muito forte porque tinha um trabalho legal. Mas assim, o surf mudou hoje em dia. Nego já sabe os caminhos a percorrer. Essa galera que tá na frente mostrou isso, principalmente depois dos títulos. Ficou muito em evidência que não é só correr o campeonato. Tem que ir atrás de preparação física, psicólogo esportivo, da parte nutricional. Então quem quer mesmo tá correndo atrás. Tinha que ter um circuito brasileiro amador muito forte, para instigar mesmo as delegações a irem, ter aquela briga e o título ser realmente valorizado. É um lance essencial.

“As gringas deram um salto animal.
Para brasileiro buscá-las, agora,
tem que ter muito investimento.”

A crise econômica atual tem impacto nisso, apesar de o surf ter se aquecido e atraído marcas de fora do meio?

Cara, o surf no Brasil só não está pior por causa dos caras que ganharam as paradas todas. Nesse atual momento era pra tá… tudo horrível. Agora, o que acontece? Amador não ganha dinheiro em campeonato, né? Mas com a economia atual fica difícil os caras terem um bom evento, uma estrutura e tal. A galera sem patrocínio, nego ganhando pouco. Não temos as ondas do Hawaii, da Austrália, então a molecada tem que viajar cada vez mais cedo. Antigamente os caras falavam: “Ah, é muito cedo, não adianta viajar que não vai absorver.” Na real adianta, sim, porque já se ambienta com os locais desde pequeno. O moleque de 12 anos precisa fazer a temporada havaiana, ou a indonésia, e acaba não indo pelo dólar muito caro. Então isso prejudica. Temos essa geração excelente, mas, de repente, por causa de um momento desses pode ter um buraco lá na frente. Tipo a nossa geração – eu, Teco, Renan, Vitinho – foi excelente, mas depois ficou um buraco, um período de mal investimento, até a de Mineirinho, e foi quando o surf começou a se levantar e pintou o resto da molecada.

Se no masculino já está precário, no feminino…

É uma pena, porque a gente vinha numa crescente com o surf feminino, com expoentes como Silvana Lima. Aí a gente passou um tempo que Silvana estava no perrengue, a própria Tita Tavares teve vários anos no perrengue de patrocínio. Ficou difícil surgir novos talentos… fica ruim, porque, por exemplo, quando você vai para o Mundial Amador, se não tiver um time completo, com o feminino bom, nunca consegue o objetivo de um título por equipes. Acredito que a própria WSL, tendo uma menina brasileira na competição, seria muito mais vista. Mas é fogo, é triste, porque a gente viu que as que tinham o potencial para correr atrás acabaram indo para outros cantos. Teve essa debandada para programas de televisão, uma coisa boa que aconteceu, que salvou um pouco. Mas, infelizmente, não tem competição, não tem apoio, e muita menina acabou indo mais para esse lado do lifestyle. Aquelas que estavam ali no pelotão de frente deram uma desanimada, porque tiveram que fazer outras coisas. O tempo vai passando. As gringas – australianas, americanas e havaianas – deram um salto animal em quantidade. Então, mermão, para brasileiro buscar essas meninas, agora, tem que ter muito investimento.

Joaca em seus dias de gala, perfeita
para usar as pranchas grandes das
quais Fabinho tanto gosta.

Que mudanças há no perfil do surfista de elite, de quando competia, para hoje?

Há muito mais seriedade, muito mais comprometimento com a profissão, com o esporte em si, com o lance de ir para as cabeças, de manter o patrocínio, de cuidar da imagem, da preparação física – buscar toda e qualquer brecha para sair na frente, porque tem muita gente surfando bem e aquele que trabalhar um pouco mais é que vai se destacar. Pergunta porque o Wilko está se dando bem. Nego fala que o cara não surfa tanto assim, que tem outros melhores. Mas, mermão, o cara deve estar correndo atrás, fazendo coisa que nego não tá fazendo ou não tá fazendo bem, se esforçando mais. Mesma coisa devem ter falado com o Mineiro, ano passado. Foco é tudo.

De que forma tem trabalhado com o Ian, na busca pela vaga no Tour?

Não é todo dia que acontece o que aconteceu com o Medina, com o Miguel Pupo, de você chegar e varar direto [para a elite mundial]. Uns ficam mais tempo na estrada. Vou citar o exemplo de Wiggolly Dantas. O Guigui ficou ali alguns anos no QS, tentando. Quando a gente achava que ele ia desanimar, alguma coisa o fez ter um gás a mais. Teve um ano que ele juntou com o Renan [Rocha], que deu um apoio moral. Enfim, demorou, mas entrou. Entrou no momento dele, em um momento bom. A gente vê que ele tá aí, sólido. O Ian tá no processo dele, como o Jessé Mendes, o Thiago Camarão. Na hora de entrar, as coisas se encaixam e os caras ficam sólidos.

O Ian tá surfando pra caramba. Surfa bem no Hawaii, em Pipeline. Tem as manobras aéreas, tem a batida forte. Mas falta alguma coisa, acho que de cabeça, em uma bateria, acreditar mais em si mesmo. É aquela coisa: o momento do encaixe. Já falei pra ele: “Você tem que pegar um psicólogo esportivo forte e trabalhar a mente, acho que é o que tá faltando para você.” É um cara esforçado, tá em Maresias com filho e tal, mas tá treinando. Volta e meia tá com o pessoal da Personal Boards, em São Paulo. Em alguns eventos se dá bem, em outros, perde – tenho visto que ele tem perdido mais por falta de sorte mesmo, de não ter vindo a nota, coisa desse tipo. Quando encaixa, encaixa de uma vez. “Onde você quer chegar? Se for no topo, vá atrás do que precisa fazer para chegar no topo, senão, não vai conseguir.” É o que eu falo pra Ian. Tenho ciência de que eu podia ter evoluído mais em algumas coisas. Precisava de um psicólogo esportivo, só que não ia atrás. Sabia que tinha que viajar um pouco mais para onda de qualidade, e mais cedo. Viajava muito, ficava cansado. Eu poderia ter evoluído mais. Mas cheguei onde cheguei e ficou beleza. Se fosse para chegar mais à frente, eu teria que ter abdicado de um monte de coisas. Ninguém é campeão mundial sem fazer sacrifícios – ninguém.

“Tinha que ter um circuito
brasileiro amador muito forte,
para o título ser realmente valorizado.”

E teu início como shaper, como foi?

Shaper no passado era uma coisa meio comum – de nego surfar e fazer suas próprias pranchas. Isso na década de 70, início da década de 80. O Ricardo Bocão, o Rico de Souza, o Otavio Pacheco, o Paulo Rabello – esses caras eram surfistas shapers. Só que o negócio foi evoluindo e ficou difícil. Na minha época, existiam outros caras que surfavam e shapeavam. Comecei em 91, 92, 93, mas parei porque não tinha tempo para me dedicar ao shape, por causa da competição. Depois, foquei na malhação e foi o que me ajudou. Mas é superimportante o cara entender de material – no mínimo entender o que ele tá usando. Tem gente que não tá nem aí, deixa na mão do shaper, mas é aquela coisa: o piloto que regula um carro de Fórmula 1 e sabe o que tá regulando tem algo mais a seu favor. Eu vejo muita gente, hoje em dia, mais preocupada com esse lance de parte física, psicológica, nutricional; e tem aqueles que não têm o dom de shapes, não curtem ou não estão nem aí, o shaper se vira. A prancha sai boa, tudo bem. Mas o cara que entende consegue algo a mais, ajusta as coisas mais facilmente, sabe o que usar e não usar.

Qual é o contexto brasileiro dos shapers?

A gente tem ótimos shapers no Brasil. Dois renomados vivem na Califórnia: o Marcio Zouvi [da SharpEye], que tá em um momento excepcional com o Filipinho; e o Xanadu. Tem o Ricardo Martins aqui no Brasil. O Johnny Cabianca, que por muitos anos morou na Espanha e faz as pranchas do Medina. Cara, não tem uma diferença entre o shaper brasileiro e o australiano. Um cara que tá na Austrália vai fazer uma prancha boa pra lá; um brasileiro vai fazer uma prancha boa pro estilo de onda daqui; o havaiano vai fazer uma prancha no estilo do Hawaii. A máquina aproximou muito os shapers. Nego revende a prancha do outro e faz um trabalho muito similar.

Se tem uma distância? Nego fala que o material americano é um pouco melhor – resina, tecido. Mas muita gente aqui trabalha com produto importado. O shaper que sai na frente é o que viaja mais, que pega onda, que tem sensibilidade própria. E o shaper não é só shaper: é empresário, administrador, cuida do marketing, muitas vezes faz de tudo. Sempre foi assim, então, às vezes, não sobra tempo para surfar. Mas é muito importante que, por exemplo, shapers brasileiros estejam no Hawaii no final do ano, que vão para a perna australiana. Mas o ponto positivo de hoje é que a globalização leva tudo para todos os lados.

O tubular Riozinho, no Campeche, é
uma peça importante para “Fia” testar
as pranchas que ele mesmo shapea.

Como é seu dia a dia hoje?

É difícil o processo de parar. Você vive de correr campeonato, tem aquela rotina, teu patrocinador, a premiação. Quando para, se não estiver fazendo alguma coisa em paralelo, fica difícil conseguir tocar depois. Geralmente, na competição, tu tem que estar focado. Se começa a visualizar outras coisas, como é o caso de Kelly Slater hoje – tudo bem que a galera tá vindo com tudo, mas a gente vê que ele tá meio sem foco, perto da aposentadoria. Não é o caso dele, mas a maioria, quando se aposenta, fica aperreada, e aí tem que correr atrás das paradas e é um leão a cada dia. Eu vim no processo de “paragem”, já me envolvia com TV, revista e site e o lance de shaper, que sempre gostei – já era uma coisa pro futuro. Mas continuo no surf profissional, e o shape é um segundo trabalho, embora esteja muito intercalado com o surf, porque faço a prancha e tenho que ir para a água testá-la. Virei um freesurfer profissional.

Dá uma sensação diferente surfar com as próprias pranchas?

Sempre gostei muito de prancha. Tipo aquele guri pequeno que gosta de carrinho e quer ter vários tipos. Quando competia, queria fazer prancha com todo mundo. Mas cara, quando você mesmo começa a fazer, tem aquela empolgação de usar sua prancha, de acertar a mágica. Chega uma hora que também precisa usar suas pranchas para divulgar a marca. No início, ainda usava bastante as pranchas de outras pessoas, mas, hoje em dia, tô na fase de usar praticamente só as minhas – pela vontade, pela curtição e pela necessidade para a evolução. Mas analiso bastante as pranchas de outros atletas. Quando acerta uma prancha, sabe que aquilo funciona, começa a repetir e dá certo, e acaba se acomodando para surfar direto com ela (rindo). Mas eu sempre surfo com variados tipos de prancha, dificilmente repito uma mais de três vezes.

Sempre em busca de evolução…

É, cara. Na real, o que acontece? Hoje em dia, o ato de surfar é muito mais complexo. Antigamente treinava, pegava onda boa. Agora tenho várias outras coisas e, quando pinta uma oportunidade, no mar que for, procuro escolher a prancha ideal. Se estiver muita marola, vou com uma fish, que flutua mais, é mais solta, ou com um pranchão. Se estiver flat, flat, vou com um stand up. Ou seja, aprendi que não existe onda ruim, existe a prancha errada. Quer dizer, onda ruim tem, mas se estiver com a prancha errada é pior (risos). Se tá ruim e você vai com a certa, se diverte mesmo assim.

Para onde caminha a evolução das pranchas?

A galera está muito preocupada em fazer um material diferente, mais ecologicamente correto. Só que é complicado, porque o que manda é a visibilidade do Circuito Mundial, é o que acaba puxando tudo. Se fizer uma prancha ecológica, mas no circuito não a usam, é difícil o negócio pegar. Nego até pega uma prancha diferente, usa em um evento aqui, ou corre uma bateria ali. Mas só pega mesmo se usarem direto – e ganharem.

“A maioria, quando se aposenta,
fica aperreada, 
tem que correr
atrás e é
um leão a cada dia.”

Tem uma questão de experimentalismo…

Tem. O Tomo tem o lado experimental mais futurístico. Outros estão mais para o retrô, com uma pitada futurística. O surf tem essas coisas de que o negócio vai e vem, vai e vem. Quem me inspirou na época foi o Brad Gerlach, que quando parou no CT passou a usar muitas pranchas diferentes. Alguns ex-surfistas profissionais começaram a deslumbrar coisas novas. Mas quem mais busca isso é o próprio Kelly. Chega uma hora que é preciso fazer coisas diferentes para estar com a vontade lá em cima. Está no circuito como um cara experimentalista. Às vezes ajuda, outras atrapalha. Às vezes, você vê que ele tá surfando de uma forma diferente, sabe que de vez em quando até rende mais, mas, vez ou outra, pega de borda ou perde velocidade.

Dá impressão que ele está em uma fase de se redescobrir, né?

Justamente porque o cara tá há muito tempo lá. Chega uma hora que enjoa, fica normal e tem que fazer coisas diferentes para manter o gás. Porque tu imagina o cara com 45 anos, para estar com o mesmo gás de um de 20 – em todos os sentidos: emoção, vontade, explosão… não é fácil. Mas tá legal. Tem uns caras muito rápidos, como o Stu Kennedy, australiano que disputa o QS e tá usando também as pranchas Tomo, rabetas diferentes, umas canaletas e tal.

Qual será a grande mudança no surf?

Cara, acho que a grande mudança é quando pegar piscina de onda. Esses lagos artificiais que nego tá fazendo – quando isso aí pegar, quando rolar uma etapa em um lugar desse, eu acho que vai ter alguma mudança, inclusive de equipamento; estabelecer algum que ande nessas condições, porque vai ser um lance de que uma onda é igual a outra. Aí, de repente, nego vai começar a usar até mais coisa assimétrica, sei lá. Eu não gosto muito dessas coisas (risos). Tipo, quilha tudo bem, bico… o que não gosto muito é uma rabeta assim, outra não – não curto muito, não. Mas assim, não é que eu fique com a mente fechada. Curtir não quer dizer que você não vai usar. Tem que experimentar sempre, senão, fica parado.

E você já ganhou em piscina de onda, no Japão…

É, no Japão venci em 1993 e 1994, em 1989 tinha sido vice-campeão e em 1996 fiquei em terceiro em uma onda na Flórida. Foram eventos especiais da ASP [a antiga WSL], só para convidados Tops (óia que chique!). Naquela época, nós já achávamos que as piscinas de onda seriam o futuro. Mas o negócio ficou meio que estagnado por causa do custo. Só que, pô, cara, agora com essas novas ondas, com esses lagos que estão fazendo – a tecnologia um pouco mais barata e o negócio melhor. Estão fazendo uma grande no Texas também, né? E agora o Kelly está à frente dessa inovação – o que é um lance importante para a evolução do esporte. Esse cara aí é um danado, viu, velho…

Esta entrevista foi originalmente publicada na HARDCORE de maio, edição #318, especial de aniversário de 27 anos

  • James B

    Gouveia pra presidente!!!!

    • Diogo

      Tu por aqui tb kkk, até mais no waves. FG sempre proporciona grandes momentos.

  • Fábio Franco

    Parabéns, conteúdo muito bom!

  • Eduardo Dantas Leite

    Excelente Fia

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