Em 2012, Michael Scott Moore foi sequestrado por piratas na Somália, que o mantiveram como refém por 33 meses e pediram um resgate multimilionário. Em setembro, enquanto completava seu primeiro ano como homem livre, o jornalista falou conosco sobre seus 977 dias em cativeiro e como o surf o tem ajudado a encontrar paz e prazer novamente.

 

Por Kevin Damasio
HC 311 | Outubro, 2015

 

Em uma manhã de terça-feira, um pirata somali passou o telefone para Michael Scott Moore. O refém escutou um negociador americano falar por 30 segundos, mas não entendeu direito o que acontecia. Em seguida, disseram-lhe que ele seria solto, mas o jornalista não acreditava mais nisso — já perdera a conta das vezes que os guardas haviam mentido para ele. Naquele 23 de setembro de 2014, contudo, seus sequestradores falavam a verdade. Algumas horas depois, ele deixaria a Somália de avião, respirando seus primeiros ares de liberdade.

Michael nasceu em Los Angeles em 1969, filho de pai americano e mãe alemã. Cresceu surfando nas praias de Manhattan e Redondo. Uma década atrás, decidiu mudar-se para Berlim para construir sua carreira de jornalista. Lá, trabalhou de 2005 até o início de 2012 no Spiegel Online, a versão em inglês do site da revista alemã Der Spiegel. Chegou ao posto de editor do portal e hoje, aos 46 anos, cultiva uma relação de freelancer.

Apesar de estar longe das ondas californianas, seu passaporte alemão lhe fez rodar o mundo em busca de surf em lugares inusitados, para os quais a atividade se difundiu mas ainda não se tornou popular: São Tomé e Príncipe, Reino Unido, Alemanha, Japão, Cuba, Israel e Faixa de Gaza. Alguns destes, na época, eram locais dificílimos de entrar como cidadão americano. “Eu encontrei pessoas em lugares em que nunca imaginei encontrar tamanho fanatismo pelo surf”, conta Michael. Essa busca pela essência do esporte transformou-se no livro Sweetness & Blood (2011).

O jornalista em ação em setembro de 2009, a bordo de um helicóptero antipirataria da OTAN, prestes a sobrevoar o Golfo do Áden, na região do Chifre da África.

O jornalista em ação em setembro de 2009, a bordo de um helicóptero antipirataria da OTAN, prestes a sobrevoar o Golfo do Áden, na região do Chifre da África.

No início de 2012, Michael embarcou para Gaalkacyo, na Somália Central, com o objetivo de escrever um livro sobre a indústria dos piratas. Foi para lá com o indiano Ashwin Raman, um premiado documentarista com vasta experiência no Oriente Médio e no norte da África. Eles estavam ávidos para escutar o lado da história para o qual escritores normalmente não dão voz: os piratas.

Mas a Somália é uma terra sem lei desde sua independência, em 1960. A partir de meados dos anos 2000, é um dos lugares mais perigosos do Planeta. De um lado, extremistas do Al-Shabaab e grupos políticos, responsáveis por uma onda de terror que forçou um milhão de somalis a sair de suas casas em busca de refúgio, em campos na terra natal ou em outros países, além de envolverem-se em grande parte dos assassinatos de 57 jornalistas desde 1992.Do outro, a pirataria alcançava seu auge, e estrangeiros — em alto-mar ou em terra — viraram fontes de resgates milionários. Até 2013, houve 1068 ataques apenas a embarcações, que resultaram no sequestro de 3741 pessoas de 125 diferentes países e ao menos US$ 315 milhões recebidos pelos reféns, de acordo com o International Maritime Bureau.

Em seu décimo dia em solo somali, Michael Scott Moore foi sequestrado por piratas. Era o início de um pesadelo que durou 33 meses. Após sua libertação, o jornalista levou um bom tempo para se recuperar física e mentalmente. Foram meses até escrever sobre o caso. Em 5 de junho, publicou uma grande reportagem no Der Spiegel (Alemanha) e no The Guardian (Inglaterra). No mês passado, prestes a completar seu primeiro ano como homem livre, Michael conversou conosco sobre sua vida como refém e o enorme papel que o surf desempenha na sua reabilitação.

Berlim, Alemanha, maio de 2015. Foto: Christian Werner

Berlim, Alemanha, maio de 2015. Foto: Christian Werner 

HARDCORE: Sobre a Somália, você levou nove meses para publicar um grande relato e começar a dar entrevistas. Quão importante foi esse tempo?Michael: Extremamente importante. Quando fui solto, eu mal conseguia andar. Nas três semanas seguintes, minha forma física era tão ruim… Meus joelhos e tornozelos estavam tão doloridos e inchados que eu não conseguia andar mais que dois quarteirões por vez. Não percebi isso até voltar a Berlim, que é uma cidade em que se anda muito. Tentei viver um dia normal, mas me sentia como se tivesse disputado um jogo de futebol americano (risos). No meu segundo ou terceiro dia em Berlim, mesmo com dores nas pernas, tentei correr para pegar um bonde, mas não consegui. Meus músculos estavam tão atrofiados e fracos por ficar sentado como um refém por dois anos e meio que eu nem mesmo tinha a estrutura adequada para correr pela calçada. Recuperar a forma ideal para andar e correr levou uns dois meses. Eu fazia ioga e ia para a academia. Enquanto me recuperava fisicamente no outono, pensei: ‘Se eu conseguir surfar enquanto estiver na Califórnia nas férias, será um grande passo à frente.’ Foi isso que consegui fazer. No começo de dezembro, eu consegui surfar.

Aonde você surfou? Como foi?
Foi em casa, em L.A., sul da Califórnia. A primeira sessão, em Manhattan Beach, foi na verdade só uma remada. Não tinha onda nenhuma, simplesmente decepcionante. Estava ridiculamente frio, pois era inverno, mas não achei que valeria a pena colocar uma roupa de borracha. Então, caí no pelo e remei. Saí do mar e me senti exausto (risos). Na sessão seguinte, tinha um swell de verdade. Caí com alguns amigos. Peguei algumas ondas, mas precisava sair do mar para controlar a respiração. Eu tinha que sentar na areia e dar um tempo — nunca passara por isso antes. E então remava para o outside de novo. No final daquela manhã, já tinha pegado várias ondas e foi ótimo. No fim do dia, estava completamente exausto, mas mantive o ritmo. Surfei uma dúzia de vezes nessa viagem. Fiquei em casa em torno de um mês e meio e depois fui para San Francisco. Surfei em Ocean Beach e em outras praias com uns amigos. No final, eu estava em uma condição muito, muito melhor. Foi um verdadeiro passo à frente, mais que simplesmente ir para a academia em Berlim.

Surfar foi a melhor terapia?
Sem dúvida. Me recuperar fisicamente também ajudou mentalmente. O surf ajudou muito. Ele te centra e foca de uma forma que nenhum exercício faz. A sensação de ser carregado pelo oceano, algo que há anos não sentia. Foi mais prazeroso que subir numa bike e ter aquela sensação de liberdade. Foi absolutamente incrível, melhor do que esperava.

Em 2010, Michael cobriu o julgamento de dez piratas da Somália, no tribunal de Hamburgo, Alemanha. Foto: Joerne Pollex

Em 2010, Michael cobriu o julgamento de dez piratas da Somália, no tribunal de Hamburgo, Alemanha. Foto: Joerne Pollex

Como surgiu a ideia de escrever um livro sobre a pirataria na Somália?
A origem, na verdade, está no meu livro Sweetness & Blood, porque escrevi sobre piratas em Marrocos, Cuba e Grã- -Bretanha. Voltei no tempo e mergulhei nessa parte da História, que achei fascinante. Enquanto isso, a pirataria somali ganhava relevância. Primeiro, escrevíamos reportagens relacionadas a piratas. E, em 2010, começou um julgamento em Hamburgo de dez piratas somalis. Eles foram detidos enquanto tentavam raptar um navio alemão, mas a marinha holandesa interveio e os dominou. Hamburgo não é tão longe de Berlim, então fui cobrir o julgamento para o Spiegel Online. O caso se estendeu por mais de um ano. Durante esse tempo, o jornalista indiano Ashwin Raman, um excelente documentarista que conheci, falava de fazer um filme na Somália. Pensei: ‘Certamente eu iria com ele para trabalhar em um livro, especialmente agora com essa história do tribunal alemão, que a maioria dos americanos nem imagina.’ Foi na corte que consegui contatos nos lugares certos da Somália. Nos empenhamos em encontrar segurança e conhecemos, em Berlim, Mohammed Sahal Gerlach, um velho somali que poderia providenciar isso. Ele era da parte relevante da Somália, o que, até onde eu sabia, significava pura sorte. Nasceu em Gaalkacyo, a mesma cidade de um dos piratas no julgamento de Hamburgo. Então, planejamos com meses de antecedência. Isso foi em 2011, e nós finalmente fomos em janeiro de 2012.

Com esse contato, você se sentiu seguro em ir para lá?
Muito. Eu me senti bem pelo fato de o Ashwin ter muita experiência. Ele já tinha feito um documentário na Somália e esteve várias vezes tanto no Afeganistão como no Iraque. E o fixer somali que contratamos era da região e oito meses antes tinha guiado outro jornalista pela Somália Central. Passamos muito tempo trabalhando as questões de segurança e logística. Pelo menos antes de irmos, eu me sentia muito bem com esses preparativos. Só que a Somália realmente está no limite, é tão isolada do resto do mundo que eles sabem imediatamente quando algum estranho está lá. Ao andar pelo país, mesmo com segurança, você sente que todo mundo está te olhando.

No seu relato, você diz que aspectos pouco abordados o motivaram a ir para o Chifre da África. Quais seriam?
Um deles é descobrir se os piratas realmente são pescadores explorados. É um tema bem complicado. Em Hamburgo, era extremamente difícil saber muito sobre os homens. Todos os advogados de defesa diziam: ‘Meu cliente é um pescador. Ele não conseguia mais pescar, porque barcos estrangeiros chegavam para roubar peixes. E então alguém apontou uma arma para ele e o forçou a se tornar um pirata.’ Muito disso me parecia sem sentido, mas é verdade que barcos estrangeiros entram nas águas somalis e pegam os peixes. Então, existe o problema com a pesca ilegal, mas ao mesmo tempo isso é usado como desculpa por muitos piratas. Desvendar isso parecia interessante para mim. O assunto também não ganhava muita atenção. Além de que, antes de a América se tornar um país, antes da revolução, teve uma fase em que tinha tão pouco emprego e as pessoas estavam tão pobres que se tornavam piratas. Pensei que devia ter algum tipo de paralelo, algo que a Somália poderia fazer. Parte do que me motivou foram esses aspectos da pirataria que ninguém prestava atenção. 

Ainda pretende escrever o livro?
Sim! Terá que ser um livro bem diferente, mas é o que farei durante o restante do meu tempo em Berlim.

MSM Box Mapa Números

Você mencionou que foi para a Somália com compaixão e curiosidade. Depois de todo esse contratempo, que sentimentos você tem pelos piratas somalis?
Há uma mistura. Não tenho mais paciência para o argumento de que piratas são apenas pescadores frustrados, porque eles já conhecem bem essa história, sabem quão bem cai na mídia ocidental. Toda vez que alguém conversa com um pirata, especialmente na cadeia, essa é a primeira coisa que vai escutar — e também o que dizem de pronto aos advogados de defesa. Pobreza é definitivamente o que faz um pirata, mas também mascar khat, a droga alucinógena deles — primeiro, muitas pessoas usam isso no país, e é absolutamente caro. Logo, é a pobreza combinada com a necessidade de ter 10, 12 dólares por dia, o que é uma quantidade de dinheiro exorbitante em um lugar como a Somália. Toda a questão da pesca e da miséria no país continua extremamente importante, porque esses são problemas de verdade, e são pesos reais na vida do povo. Mas não é diretamente o que força um garoto a se tornar pirata.

Então existe uma linha tênue entre questões sociais e ações criminais? Há os que usam os problemas para manter uma organização criminosa…
Exato! Essa é a realidade dos piratas durante toda nossa História. Eles pegam um problema social e grandes injustiças, levam para uma causa própria e as pervertem, porque estão atrás apenas de dinheiro. Isso também acontece com o Al-Shabaab, que é o grupo islâmico extremista na Somália. As reivindicações e a injustiça existem de verdade, mas eles as distorcem para seus próprios fins. Eles acabam sendo, por conta própria, uma força para o mal.

Na sua pesquisa, você leu bastante sobre jornalistas que foram sequestrados?
Sim. O Colin Freeman, do The Telegraph, foi sequestrado e sua história já tinha sido publicada. Sem dúvida, também me interessei pelo caso dos Chandler [Paul e Rachel, casal britânico que passou 388 dias em cativeiro, depois de serem sequestrados em seu iate em outubro de 2009] — o livro deles saiu uns dois meses antes da minha viagem. Eu acompanhava as histórias até certo ponto, mas não as estudava, porque não pensava que precisaria aprender a ser um refém. Concentrei no meu objetivo, em vez de focar na pior possibilidade. Apenas tentávamos nos manter seguros. Então, antes de ir não absorvi todas as histórias de reféns, porque pensei que escreveria algo diferente.

Como foram os primeiros dez dias na Somália?
Foram fascinantes! Foi um verdadeiro privilégio ver certas partes da Somália nunca vistas antes pela maioria das pessoas de fora. Pela costa, dirigimos para Hobyo e voltamos. Tudo se saiu bem. Então, fiquei iludido na ideia de que a segurança funcionava e que as coisas continuariam a dar certo. Não nos sentíamos protegidos, mas tínhamos sucesso. Depois da viagem a Hobyo, Ashwin e eu combinamos que sairíamos de lá o quanto antes. Só que não parecia tão urgente a ponto de irmos embora na manhã seguinte, até porque os voos só sairiam em alguns dias. Ele iria para Mogadíscio, capital somali; eu, para Nairóbi, no Quênia. E precisávamos pensar em quando nossos voos partiriam, quanto tempo mais passaríamos ali. Tudo caminhava relativamente bem, mas sabíamos que não deveríamos abusar, não deveríamos tentar passar tanto tempo a mais. Era exatamente o que procurávamos evitar.

O que mais chamou sua atenção durante esse tempo?
O principal foi uma entrevista com um chefe dos piratas em Hobyo, que nosso fixer nos arrumou quando fomos para a costa, a 200 quilômetros de Gaalkacyo. Ele entrou na sala, Ashwin filmou a entrevista, eu fiz anotações, mas o homem estava com um keffiyeh (lenço) na cabeça e provavelmente nos disse um nome falso. Foi muito interessante conseguirmos isso, mas ao mesmo tempo era decepcionante, porque não tínhamos tanta certeza de quanto ele mentia, quanto falava a verdade. Mesmo agora não sei quem o pirata é. Devo ter conhecido no meio do caminho, então tenho minhas suspeitas, mas preciso trabalhar mais nisso. É um mundo extremamente sombrio, então temos que aceitar que não necessariamente saberemos de tudo.

E você pensava que ainda não tinha juntado material suficiente para o livro?
Sim. Eu tinha material geral suficiente, mas estava atrás de entrevistas com parentes dos piratas. Ainda precisava arranjá-las, e isso demandaria um pouco mais de organização. Eu decidi que não seria teimoso. ‘Se não der certo, não deu.’ Esperaria meu voo para Nairóbi e terminaria com o que conseguisse até lá. Então buscávamos um equilíbrio em relação a isso. O problema é que, na verdade, nós estávamos sendo vigiados. Os piratas apenas buscavam uma oportunidade para nos capturar.

Ainda em liberdade, Michael e o documentarista indiano Ashwin Raman chegam a Hobyo, onde entrevistaram um pirata de alto escalão.

Ainda em liberdade, Michael e o documentarista indiano Ashwin Raman chegam a Hobyo, onde entrevistaram um pirata de alto escalão.

Em 21 de janeiro de 2012, depois de dez dias na Somália, Ashwin Raman, o jornalista indiano, voltava para casa. Ele já tinha tudo que precisava para seu documentário. Michael, por sua vez, pretendia ficar mais alguns dias. Entretanto, não era seguro permanecer sozinho no hotel.

Na estrada que dava para o aeroporto de Gaalkacyo, meses antes, dois trabalhadores humanitários haviam sido sequestrados. Para dirigir com segurança, Gerlach, o guia da dupla, providenciou um carro pessoal do presidente regional, protegido por um atirador somali. “Mas já era tarde demais. Já tínhamos sido investigados”, escreveu Michael em seu artigo ao Der Spiegel e ao The Guardian.

Enquanto Michael aguardava, no aeroporto, o voo de Ashwin, um jovem somali escutou o nome dele e perguntou: “Você é o Michael Scott Moore? Eu já te vi na internet. Você é famoso!” Depois da partida do indiano, Michael voltava para o hotel na estrada empoeirada, onde os piratas o aguardavam.

Quando avistou a caminhonete na estrada, com metralhadoras e Kalashnikovs, como se sentiu?

MSM Box O sequestro Parte de mim sabia o que estava acontecendo, mas outra parte negava, pensava: ‘Bom, não é tão ruim quanto parece. Eles só querem conferir meus documentos e passaporte ou algo assim.’ Mas uma vez que eles saíram do carro, eu já tinha boa noção do que rolava.

Foi aí que perdeu seus óculos de grau?
Meus óculos quebrados ficaram na poeira quando os piratas me raptaram. No escuro, eu fico praticamente cego com muita facilidade. Então, me mexer nessa condição era frustrante. Era terrível me sentir tão impotente. Com visão aguçada, pelo menos eu poderia compreender o que me cercava mais rapidamente — e, talvez, ter fugido.

Como foram os primeiros dias em cativeiro?
Primeiro, eu estava machucado. Eles quebraram meu pulso e bateram na minha cabeça… Foi fisicamente difícil, mas naqueles primeiros dias eu provavelmente estava mais otimista em relação a ser solto. Me dei conta bem lentamente de que não seria libertado.

Você pensou que seria solto em pouco tempo?
Era a esperança, sabe? ‘Espero que isso acabe logo. Não pode ser tão ruim quanto parece.’

Suas impressões sobre a pirataria na Somália mudaram?
Por ter um olhar tão detalhado e próximo sobre como um grupo pirata realmente trabalha, sem dúvida mudei o que pensava. O que ficou claro para mim é que o khat tem um papel extremamente importante na vida de um pirata — é a motivação econômica. Isso é algo não abordado por um relatório das Nações Unidas que acabou de ser publicado. Acredito que seja mais importante do que a pesca. E eu sabia disso em teoria, mas observei nos mínimos detalhes enquanto estava lá, em cativeiro. Outro fator que me surpreendeu foi a motivação religiosa.

Na sua reportagem, você menciona que os piratas, baseados no Alcorão, pensam que é OK sequestrar e roubar de infiéis. Eles seguem o livro sagrado do Islã ou o distorcem?
Eles distorcem de uma forma relativamente comum. A meu ver é uma questão, pelo menos na Somália, de serem extremamente esquecidos pelo resto do mundo. E atribuem do Alcorão valores que não necessariamente deveriam ser levados em consideração. Eles se baseiam na ideia de roubar de infiéis — e tenho certeza de que escutaram isso de outro imã ou pregador — de versos do Alcorão que dizem que você deve lutar contra infiéis. Uma coisa não necessariamente leva à outra, mas, se você é excluído do resto do planeta, não precisa lidar com infiéis na maior parte do tempo. Então, algumas dessas simplórias linhas de pensamento tornam-se persuasivas. E, claro, se você é viciado em khat e precisa de dinheiro para tal, isso vira muito mais convincente. 

Eles também são fundamentalistas?
Aí é que está. Os piratas não se consideram. Na verdade, essa é a diferença entre eles e o Al-Shabaab, no qual existem os verdadeiros fundamentalistas. Os piratas são apenas oportunistas e criminosos. Suas noções do Islã são um pouco mais relaxadas que as do Al-Shabaab, mas ainda assim possuem essas leituras malucas do Alcorão.

Observado por um pirata somali, um cargueiro grego ancora em Hobyo, nordeste da Somália. Foto: AFP

Observado por um pirata somali, um cargueiro grego ancora em Hobyo, nordeste da Somália. Foto: AFP 

Os trabalhadores humanitários sequestrados em outubro de 2011 eram a americana Jessica Buchanan e o dinamarquês Poul Thisted. Por volta das 2 da madrugada de 25 de janeiro de 2012, duas dúzias de membros do exército americano iniciavam uma missão arriscada. Saltaram de helicópteros e aterrissaram no matagal ao sul de Gaalkacyo; caminharam por três quilômetros, resgataram os reféns, mataram nove piratas somalis e voaram para longe sem um arranhão. Em seu quarto dia em cativeiro, Michael estava perto dali. Na reportagem, ele recorda os momentos confusos que viveu na sequência do resgate dos vizinhos.

Junto a Rolly Tambara, um senhor de Seicheles, ele estava preso como refém por um grupo diferente de piratas, mas financiado pelo mesmo chefe: Mohammed Garfanji, que perdeu um parente durante a investida dos soldados americanos. Até as últimas horas daquele dia, os apreensivos sequestradores dirigiram com Michael e Rolly, acelerando aleatoriamente por quilômetros de mato até chegar a um “vale árido e arborizado”, onde os reféns ficaram “como crianças do jardim de infância, em um colchão de espuma sob uma árvore”. Michael só saberia do resgate semanas depois.

Como foi descobrir que Buchanan e Thisted haviam sido resgatados e que se encontravam próximos de você? Isso aumentou ou não suas esperanças de ser resgatado?
Depende do dia. Logo que fui capturado, eu não nutria nenhuma esperança de resgate. Ponto. Porque precisa de muito para fazer com que os militares americanos operem em solo somali, e normalmente, quando fazem, tem a ver com terroristas do Al-Shabaab e da Al-Qaeda que eles querem eliminar ou capturar. Houve pouquíssimas operações na Somália, e nenhuma de fato envolvia piratas. O resgate de Buchanan pegou todo mundo de surpresa — foi a grande exceção. Depois disso, concluí: ‘Bom, talvez seja resgatado também, talvez isso abra um belo precedente.’ Em dias ruins, eu pensava: ‘Bom, eles já fizeram uma vez, então não farão de novo.’ 

MSM Box 987 dias com os piratas

Você escutava os piratas negociarem o seu resgate?
Não, eles vinham me falar, mas nunca tinha certeza se diziam a verdade. Nunca vi nem ouvi as negociações. Tudo aconteceu longe de mim. 

E eles falaram de 20 milhões de dólares, certo?
Sim. Quando me colocaram ao telefone com minha família, eles me falaram o que deveria exigir. Mas as chamadas e os vídeos eram apenas teatro. Eu estava ciente de que o que acontecia na minha frente não era a verdadeira negociação. Eu estava sendo usado para pressionar minha família. Sempre soube disso.

Como você se sentia com isso?
Você se sente como um fardo. Uma ligação não é simples. Primeiro, você não podia falar tudo o que queria. Não podia dizer em voz alta onde você estava. Apesar disso, algumas vezes falei em alemão algo que precisava esclarecer. Parecia tão fácil dizer a coisa errada ao telefone que na verdade eram ocasiões mais estressantes que felizes.

O governo alemão teve participação nas negociações?
Até onde sei, eles não participaram de negociações nos bastidores. Os piratas tentavam me dizer que isso ou aquilo estava acontecendo, mas eu não tinha motivo nenhum para acreditar neles. Disseram que a ONU estava envolvida — mas a ONU não negocia coisas desse tipo. Então, havia muitos rumores que os negociadores somalis colocavam em circulação para os guardas, para que eles se sentissem melhor — e eu escutava essas besteiras.

E as conversas sobre vendê-lo para o Al-Shabaab?
Eles usaram isso durante o primeiro ano. Não sei quão verdadeiras eram essas ameaças. Nas primeiras semanas, eu pensei que fosse uma possibilidade real, e tinha muito medo disso. Dentro do carro, se sentisse que movíamos para o sul, eu pensava: ‘Bom, é isso aí. Eles vão me vender para o Al-Shabaab hoje, e se isso acontecer eu realmente terei que cometer suicídio.’ Ser capturado por piratas já é ruim o suficiente; pelo Al-Shabaab, então, teria sido algo inescrupuloso.

Você teve pensamentos suicidas?
Sim. Quando o sequestro se prolongou por tanto tempo, ideias suicidas tornaram-se uma forma muito fácil de me entreter. Os guardas às vezes saíam e deixavam suas armas, de bobeira. Então, se tivesse me concentrado e se realmente quisesse — e pensei bastante nisso —, eu teria pegado uma arma e mudado tudo.

O que te ajudou a manter a sanidade, a não fazer algo assim, a superar essas situações?
Ainda não está claro. Eu sabia que seria um desastre completo para minha família. Eu sabia que eles estavam trabalhando para me tirar de lá. Fiz ioga quase todo dia, o que só sei porque surfo, e saber isso realmente me salvou. Também teve ocasiões em que eu podia escrever, e isso me ajudou.

Logo no início, os caras roubaram sua mala com tudo que tinha, inclusive as anotações?
Sim, as anotações dos dez primeiros dias… Em outros dois momentos como refém eu pude escrever, mas eles confiscaram os cadernos. Então, nos últimos meses, me deram cadernos que não tiraram de mim, portanto tenho várias anotações da última parte do sequestro. Enquanto sentava com papel e caneta na mão, não só escrevia o que rolava no dia a dia como também o que já tinha acontecido antes. Caso contrário, teria que resgatar da minha memória, que é bem boa. De alguma forma, é isso que faz um bom escritor. Claro, seria melhor se eu tivesse anotações detalhadas do que as pessoas falavam, mas há certas conversas, certas cenas que ficam na sua cabeça, e quando você senta para recriá-las, o resto vem junto. É bem interessante como isso funciona. 

Michael cercado pelos piratas, em setembro de 2013. Divulgar fotos era uma forma de os somalis comprovarem que o refém ainda estava vivo e, com isso, exigir o valor do resgate.

Michael cercado pelos piratas, em setembro de 2013. Divulgar fotos era uma forma de os somalis comprovarem que o refém ainda estava vivo e, com isso, exigir o valor do resgate.

Michael conheceu Rolly Tambara na manhã seguinte a sua abdução, quando o seichelense e outro refém entraram no carro, que depois seguiu para uma casa. Então com 69 anos de idade, o pescador foi sequestrado em novembro de 2011, junto ao conterrâneo Marc Songoire, 63, enquanto estavam em um barco em Aride, a 100 quilômetros da costa de Seicheles. Michael e Rolly tornaram-se bons amigos.

A companhia, no entanto, durou até novembro de 2012, quando o seichelense foi libertado. Um pirata disse que o governo os pagou US$ 3 milhões  o que não foi confirmado. Meses antes, em maio de 2012, Michael e Rolly viveram o que o jornalista definiu como “o dia mais estranho e terrível da minha vida.”

Como foi o momento mais difícil do sequestro, quando você viu o Rolly ser torturado?
Não sabia o que estava acontecendo quando eles nos tiraram do barco de pesca, onde nos escondiam naquela época. Então, na manhã seguinte eles dirigiram até o meio do mato para que pudéssemos conhecer o chefe Mohammed Garfanji e um grande grupo de piratas de alto escalão. Conhecer o Garfanji foi assustador, porque, em linhas gerais, eu sabia quem ele era. Ele decidiu amarrar o Rolly na árvore, pelos pés, e golpeá-lo na cabeça com um bastão. Enquanto isso, os guardas me arrastaram para assistir. Eles obviamente tentavam tirar dinheiro de Rolly, mas também tentavam me ameaçar. E foi horrível. Eu me sentia completamente miserável. Logo que vi, não consegui acreditar no que estava acontecendo. Essa é uma ilustração de quão selvagem a Somália pode ser. Ainda não há ninguém no comando da maioria das regiões do país. 

Achou que seria o próximo a ser torturado?
Pensei que fosse. O cara disse que eu seria. E na verdade naquele dia eles me ameaçaram ou a me amarrar numa árvore ou a me vender ao Al-Shabaab. Eles realmente tentavam aterrorizar nós dois.

Depois disso vocês gravaram o vídeo que soltaram na internet?
Exato, o único vídeo que foi divulgado — um dos cinco que gravamos. Antes, nós ensaiamos tudo o que eu falaria. Aí alguns jovens somalis ligaram a câmera e o Garfanji gritava as questões. Sabíamos exatamente como seria. Eu não dizia nada honesta e espontaneamente.

O vídeo de 18 de maio, que dura quatro minutos, foi vendido para o jornal Somalia Report e publicado no YouTube dois dias depois. Guardas cercavam e apontavam suas armas pesadas ao refém. Os piratas atrás da câmera às vezes falavam um inglês indistinguível, mas os principais trechos são os seguintes: 

Garfanji: Primeiro, qual é sua condição?

Michael: Minha condição não é muito boa. Eu não estou muito saudável. Eu não como há dois dias, e a única coisa que recebo é pão e água de vez em quando.

[…]

Garfanji: O que você pede para seu governo?

Michael: Eu tenho que pedir para o governo americano ou alemão o valor integral do resgate.

[…]

Garfanji: Que problema você terá se eles não pagarem o resgate?

Michael: Se não tiver resposta sobre o pagamento do resgate em três dias, então os sequestradores vão me vender… vão me vender para o Al-Shabaab. 

Nesse momento, como você se sentia física e mentalmente?
Me mandaram dizer para a câmera que estava faminto. Na verdade, fomos muito bem alimentados. Eu estava deprimido. Fiquei com muito medo naquela tarde, mas não me bateram. Eu não estava tão fraco a ponto de me desesperar. Sabe, estive lá por dois anos e meio. Comparado ao período seguinte, estava relativamente forte. Era capaz de ver quanta merda acontecia à minha volta. Então, de fato eu estava um pouco desafiador naquele vídeo. Não gostava nem um pouco do Garfanji.

Como era sua dieta?
Ah, era tão ruim que fiquei seriamente desnutrido quando voltei para casa. Era geralmente feijão, algumas batatas e uma vez por semana cabra ensopada. Perdi 18 quilos nos primeiros três meses, mas no final só estava 13 quilos abaixo do normal.

E sua relação com os guardas?
Não era tão ruim. Ainda tínhamos aqueles papéis para representar, mas claro que você não consegue odiar alguém 100% do tempo, mesmo que seja seu inimigo. E mais ou menos metade dos guardas tinha algum tipo de inteligência social, de fato se esforçava para se comunicar comigo. Desenvolvemos um jargão, uma mistura de somali com inglês. Quando se viaja bastante, dá para saber com quem você se daria bem. Rolavam vários períodos amenos durante o dia, quando conseguíamos conversar de um jeito normal. Mas a outra metade não dava a mínima, nem tentava me entender quando eu falava algumas palavras em somali.

Na sua reportagem, você comenta que falava bastante com Bashko, um dos guardas, e até o considerava um amigo. Como era isso?
Sim, ele virou meu amigo. Tentava me ajudar quando eu precisava de algo, por exemplo, mais alimentos. Mas não tinha muito o que ele podia fazer. Geralmente, eu escutava rumores das negociações por ele, só que havia um limite entre o quanto podia me falar e o quanto realmente sabia. Então, antes de mais nada, ele não se importava em mentir para mim, e algumas vezes me contava rumores entre os somalis que, no final, se provaram errados. Por isso ele era um amigo, mas não completamente um bom amigo (risos).

Como a sensação de solidão mudou depois que Rolly tambara foi solto?
Foi horrível me separar de Rolly. Conversar com os guardas não chegava nem perto do que significava falar com ele. Com os guardas, você tem que aceitar um bom número de mentiras. Com um refém, pelo menos, o mundo não parecia tão de ponta-cabeça.

Para pressionar os governos americano e alemão, os sequestradores divulgavam imagens de Michael, como esta, de novembro de 2013.

Para pressionar os governos americano e alemão, os sequestradores divulgavam imagens de Michael, como esta, de novembro de 2013. 

Desde o outono de 2012, Dhuxul assumiu o controle do cativeiro de Michael. Como o jornalista menciona em seu artigo, o guarda somali “vivia em uma das quatro casas da prisão, o que não era comum” para um pirata de alto escalão. “Ele mantinha álcool e uma tevê em seu quarto”  no Islã, bebidas alcoólicas são proibidas por serem consideradas haram (pecado).

Sob a supervisão de Dhuxul, Michael perdeu um pouco mais do senso de liberdade que um refém pode sustentar. No início de 2013, o somali ordenou que guardas acorrentassem os pés de Michael diariamente, logo após o jantar. Assim ele ficava das 6 da noite às 5 da manhã, hora da oração. “Os caras me tratavam como se faz com um rebanho de animais”, escreveu Michael. Essa situação durou 18 meses.

“O que ajudou”, disse Michael, “foi uma paradoxal atitude de perdão em relação aos guardas”. O americano-germânico ainda lembrava de um escritor que citava o filósofo Epiteto, que conclui que “a vítima sofre apenas por seu próprio consentimento.” 

Na primavera de 2013, você também fez greves de fome?
Exatamente. Eu comecei a fazer greves de fome, porque eles tinham parado de me colocar ao telefone com a minha família. Por isso, eu sabia que algo estava errado e que certa pressão vinda de baixo ajudaria, mas não sabia exatamente até onde ir com isso. Depois de ser sequestrado, quase todo dia os piratas mentiam para mim sobre as questões mais básicas: quando eu comeria, quando estaria livre… Mentiam tanto que ficou cansativo. Chegou a um nível desumano.

Como foi quando os guardas disseram que você seria solto e realmente falavam sério?
Eu escutava isso todo mês, por anos, então certamente não acreditei. E então eles me botaram em um carro — eu ainda não acreditava, apesar de perceber que algo diferente acontecia, mas não podia cultivar o luxo da esperança. Eu presumi que seria vendido para outro grupo. Eles disseram: ‘Antes de você ir para o aeroporto, vamos entregá-lo para outros somalis.’ ‘Vocês me venderam! Cansaram-se de me prender aqui e me venderam! Vou passar mais um ano na Somália!’ Mas logo fui levado para outro carro com um somali, sem armas, e então ficou claro que eu seria libertado. Foi difícil de acreditar.

Em que momento você percebeu que era verdade: você era um homem livre?
O motorista me colocou ao telefone com o negociador, com quem eu já tinha conversado naquela manhã. Minha mãe escutou as duas conversas, e na segunda ela também falou. Ela disse que a diferença na minha voz de manhã e na do carro, quando realmente comecei a entender o que acontecia, era como noite e dia. Não posso dizer que lembro da diferença de emoções, porque eu estava desligado, realmente tinha isolado meus sentimentos. Mas ela disse que era capaz de notar a diferença pelo tom da minha voz. Então, esse deve ter sido o momento (risos).

Berlim, Alemanha, maio de 2015. Foto: Christian Werner

Berlim, Alemanha, maio de 2015. Foto: Christian Werner 

Michael Scott Moore foi solto em seu 977o dia em cativeiro. Um somali o dirigiu para o hotel e outro o levou para o aeroporto de Gaalkacyo, onde ele encontrou Derek, o piloto. Seguiram a sudeste até Mogadíscio, a capital, de onde o jornalista pegou um avião para Nairóbi. Ele começou a se sentir seguro durante os dias na capital do Quênia. Quando chegou em Berlim, encontrou a mãe, o tio e a tia.

Em vez dos US$ 5 milhões então exigidos, os somalis aceitaram receber US$ 1,6 milhão pelo resgate, coletado pela família e composto por doações de instituições. Por outro lado, Michael soube que, nos dois anos e oito meses, o grupo de piratas gastou US$ 2 milhões para mantê-lo em cativeiro. Mais tarde, descobriu o que aconteceu em Gaalkacyo três dias depois de ser liberado. Em 26 de setembro de 2014, de acordo com o New York Times, os sequestradores encontraram-se para discutir a divisão do dinheiro. O clima estava tenso. Um grupo acusou o outro de traição, por suspeitar de que conduziam negociações em paralelo. Um guarda atirou, seguido por um descontrolado fogo cruzado. Três dos sequestradores de Michael morreram na hora, um deles fazia parte dos líderes do grupo. Outro, com ferimentos severos, viveu apenas mais três dias.

A Associated Press informou que Mohammed Garfanji foi preso em 17 de agosto de 2014, de acordo com a polícia somali. O capitão Mohamed Hassan classificou Garfanji como o segundo maior líder da indústria de piratas na Somália pouco tempo antes, disseram ter prendido o maior chefe da pirataria do país. Entretanto, como ressalta Michael, Garfanji passou apenas um mês preso, até ser liberado. “Ele saiu antes de eu ser solto”, diz.

Como jornalista, mesmo com os riscos, você adquiriu um registro sobre a pirataria somali de dentro. Você pensa nisso como um lado positivo no pesadelo de ser sequestrado?
Não, não valeu a pena simplesmente porque consegui a história de dentro. Não sou um fanático. Por outro lado, acho que o William Burroughs disse: ‘O escritor tem a grande vantagem de que tudo o que acontece com ele vira material.’ Apenas capturar de perto não significa necessariamente que renderá uma boa história. O que um escritor faz é imaginar antes o que será uma boa história. Você segue com um plano para certo livro e tenta executá-lo, mas termina com algo diferente. Eu deveria estar acostumado com isso… 

Você escreveu que antes era um homem pacífico, mas que agora não tem tanta certeza. Algo mudou sobre sua forma de pensar na vida, no mundo?
Sim, tenho certeza de que mudei permanentemente. Imagino que só vou descobrir como enquanto escrever meu livro.

 

Esta reportagem foi originalmente publicada na HARDCORE 311, de outubro de 2015.