Por Bruno Zanin | Fotos Sebastian Rojas
HC #321, setembro/2016

 

Todos os anos eu tento passar pelo menos três meses na Indonésia. O paraíso do surf é o lugar mais irado para produzir conteúdo. Ali, todo mundo se encontra.

Depois de pegar um intenso secret na companhia dos amigos Yago Dora, Yuri Gonçalves e Henrique Pinguim, partir com o Lucas Silveira para Nias e Desert Point, e, como a cerejinha do bolo, o destino me fez chegar às ondas de Lakey Peak para uma grande temporada na Indonésia.

A história começa com o Lucas, que havia comentado que teria quinze dias de folga entre o US Open e a perna europeia. Se tivesse um bom swell, ficaria amarradão de voltar pra Indonésia para continuar o filme que estamos produzindo.

Nesse papo, o Mineiro disse que também poderia vir, mas não teria tantos dias disponíveis. A escolha do destino precisava ser certeira.

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As agendas se encaixaram, e os dois treinaram juntos na Califórnia na companhia de Leandro Dora, o Grilão, da equipe AprimoreSurf. Durante o US Open, ficaram de olho na previsão para a Indo.

O Lucas chegou um pouco antes e pegou Desert de responsa, foi monstro em todo o swell, fez a mala desde o Point até o Grower. Foi o Luquinhas quem botou pilha no Mineiro e o trouxe para a Indo. Foi muito bacana vê-los surfando Desert. Duas performances totalmente diferentes na leitura da onda.

Com o Adriano, a história foi engraçada. Ele chegou muito tarde em Lombok e parou no primeiro hotel que encontrou. Eu filmava o Lucas em altas ondas, quando chegou uma mensagem do Mineiro. Perguntava onde estávamos. Ele acordou, pegou o telefone e escreveu: “Não sei onde estou, mas aqui está flat”. Só que ele estava de frente para uma lagoa, muito longe de Desert. Pensou que fosse a praia na maré cheia. Rimos muito com a situação. Ele veio ao nosso encontro e aproveitou. As poucas ondas que pegou levaram a galera ao delírio. Caras que sempre estão no pico ficaram admirados com a abordagem dele. Uma onda de difícil leitura, mas para o Adriano ficou fácil. Começava com manobras e emendava tubos – outro timing.

O próximo alvo: Lakey Peak.

Campeão mundial.
Adriano de Souza.
Lapidado em Lakey Peak.

LAKEY PEAK

A parte final do plano – o foco dessa reportagem – tinha Lakey Peak na mosca do alvo. A companhia do fotógrafo Sebastian Rojas estava confirmada, e lá nos encontramos.

O foco em Lakey era para render manobra. Um lugar de incrível diversidade de ondas em um raio muito curto de espaço. Existem no mínimo quatro sessões de ondas muito boas, com as melhores em Lakey Peak e Periscopes.

Lakey abre para os dois lados, manobrável e cheia de quebradeira, para uma onda muito high performance. Já Periscope é uma direta animal, que funciona na maré cheia em seu melhor momento. 

Lakey Peak oferece dez horas de surf por dia. Com o Lucas então, são quatorze horas. O moleque é bizarro, fica o dia inteiro dentro do mar.Quando a maré enche, é hora de ir para Periscope.

Fotografia linda, os moradores locais são muito legais e receptivos. Os hotéis são de frente para as ondas, o que te deixa imerso no lugar.

A leitura de onda refinada
de Adriano é sempre
percebida no pico indonésio.

ADRIANO DE SOUZA

O Adriano, na minha opinião, é um campeão tanto dentro como fora do mar. Acho, inclusive, que  já vinha mostrando um estilo de campeão há muito tempo, e agora suas características mais refinadas de surf ficaram expostas.

Mineiro é o cara mais dedicado e trabalhador do Tour, e tem a humildade de querer aprender com todos ao seu redor, o tempo inteiro buscando a evolução, trocando informações, fazendo perguntas…

Rolou uma situação bem interessante com uns gringos, que eu observei muito, em uma queda de uma hora e meia, e o mar glassy…

Os gringos bons de surf pegaram muita onda, até mais do que o Lucas e o Mineiro. E quando eles saíram d’água, vieram na minha direção e perguntaram se quem estava no mar eram realmente o Lucas e o Mineiro. Confirmei que sim e eles, eufóricos, não acreditaram no cavalheirismo dos campeões mundiais. Começaram a dizer que os surfistas do CT que vêm surfar na Indo rabeiam total, e que com o Lucas e o Mineiro aconteceu exatamente o contrário, com os brasileiros deixando as prioridades. Foi irado ouvir isso dos australianos, que valorizaram demais a humildade principalmente do Adriano, e o quanto ele é amistoso dentro do mar.

Campeão mundial júnior.
Lucas Silveira.
Do jeito que gosta: na pressão.

LUCAS SILVEIRA

O Lucas é um grande amigo, estou mais presente para ver a sua evolução e tenho certeza que ele vai ser um dos próximos brasileiros no Tour: focado, dedicado. Ele acredita que o profissional do surf é como o de qualquer outro ramo.

O bicho acorda às 5 horas da manhã, vai pra dentro d’água. Volta para tomar um café, de novo pro mar. Sai para almoçar, mar, uma queda grande. Sai, come algo, volta pro mar e só vem pra terra firme quando escurece no pico. O moleque é bizarro.

Ele se amarra no the search, em buscar novas ondas pelo mundo e conhecer as mais variadas condições de surf. É um cara que não liga tanto para conforto, se mostra muito versátil na adaptação aos lugares, e talvez isso tenha  influenciado sua vitória do título mundial Pro Junior em ondas bem geladas de Ericeira, Portugal. Luquinhas apresenta um belo repertório de manobras muito fortes em ondas pequenas e variação de aéreos e ótimo go for it para tubos.

Lucas tem rodado o mundo
em busca das mais 
variadas condições de mar.

QUER SABER? FOI MUITO IRADO!

Além de ídolos, são amigos sinceros, que agem naturalmente, que querem mais. Minas e Lucas, vieram pra Indo para surfar muito e trocar experiências.

Durante as noites, os dois assistiam aos vídeos. O Mineiro dava os toques, corrigia o posicionamento nas ondas; desenvolveu com o tempo e aperfeiçoou como ninguém a técnica para impressionar os juízes, o que contribuiu para seu título mundial.

E ter a companhia do Sebá na trip foi foda. Ele tem uma vibe espetacular, é um cara que carrega felicidade e espalha carisma. É um professor da fotografia e da vida no surf, e ao trocar ideias com ele, subiu em muito o nível da barca. A vivacidade do Sebá é incomparável, contagia.

Terima Kasih, Indonésia. HC

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  • luiz

    Dois atletas, pessoas, que valorizam o esporte, enobrecem, agregam. “Nada vale a pena, se a alma é pequena” … Esses dão alma ao negócio !

  • Cassio Ruas

    Dá gosto ler matérias nesse estilo! Por mais surfistas assim no Tour, que a cada dia é mais bussines e menos soul. Há de existir um equilíbrio. Vamos competir! Mas, sem perder ternura, jamais! Aloha!