Por Kevin Damasio
HC #328, maio/2017

Na estreia do Circuito Medina/ASM, Maju Freitas estava confiante. No primeiro dia, avançou por todas as baterias que teve na categoria principal, a sub-16. No fim da tarde, teve um mal estar, mas se recuperou no dia seguinte e conquistou a etapa em Maresias. Ao final de 2016, os melhores no sub-16, sub-14, sub-12 e sub-10 entrariam para o time do Instituto Gabriel Medina, desde que morassem em Maresias, no litoral norte de São Paulo, sede do centro de treinamento e onde o campeão mundial iniciou sua jornada.

Carioca do Recreio dos Bandeirantes, Maju continuou a temporada sem expectativas de treinar no Instituto, mas concentrada na competição. Se no circuito de Maresias ela não terminou entre as Top 4, no Rio de Janeiro Maju foi campeã no circuito sub-14 e vice no sub-18, além da vitória na primeira etapa do Rip Curl Grom Search 2017, na praia da Joaquina, Florianópolis. Pelo desempenho, recebeu o convite e, em fevereiro último, a surfista de 15 anos se mudou para Maresias, para estudar e treinar no Instituto Medina.

Um acervo com as glórias de Medina inspira os atletas do IGM. Foto: Caio Palazzo

Maju surfa desde os 3 anos e sempre escutou os conselhos do pai, o longboarder Marcelo Freitas: “Você precisa treinar muito, se preparar, com disciplina e foco”. Desde que chegou no Instituto, as palavras do pai fizeram ainda mais sentido. Todos os dias, depois da escola, Maju surfa duas horas e meia, faz treino funcional e natação. Já sente o condicionamento físico bem melhor e, a cada dia, evolução na parte técnica.

Maju tem refinado seus pontos fortes: “surf de linha, manobras de borda, rasgadas chutando a rabeta, batidas, e quero aprender os aéreos e pegar meus primeiros tubos de verdade”. Nos treinamentos diários, ela gostou mais das filmagens e observações dos técnicos, “mas não é só isso”, completa. “As aulas de informática e inglês estão nos preparando para a vida, aprendemos outras coisas além do surf e acho isso ótimo. Tudo aqui é mais divertido, fica mais fácil de aprender. Passar o dia aqui é demais!” A dedicação e a estrutura traduziram-se no quinto lugar de Maju no Rip Curl Pro Argentina, etapa do QS feminino. 

A técnica é desenvolvida no mar e na piscina, onde rola apneia e natação. Foto: Instituto Medina

Inaugurado em 31 de janeiro, o Instituto é uma iniciativa de Gabriel, Simone e Charles, para retribuir tudo que o surf proporcionou à família Medina. A sede de 336 metros quadrados fica em Maresias, de frente para o mar, em um terreno por onde Gabriel e Charles sempre passavam quando iam treinar no home break. Na parte externa, um palanque com vista para as ondas, uma piscina para natação e apneia e cama elástica para treino de aéreos. No interior, academia, sala de aula, laboratório de informática e um acervo com as glórias da carreira de Medina.

“O time de profissionais que está cuidando dessas crianças é o mesmo que cuida do Gabriel, de preparador físico a manager e assessor de imprensa. Todos colaboram com muita seriedade”, diz Charles, vice-presidente e supervisor técnico do Instituto. O médico Marcelo Baboghluian, continua Charles, passa à garotada a importância da saúde e o que faz um grande atleta: treinar, comer e dormir bem. “Não sei se é uma linha de general, mas eles estão disciplinados, seguem isso e os resultados já estão vindo.”

Charles afirma que todos os atletas evoluíram desde o início dos treinamentos. Ganharam mais técnica, força, maturidade e tática. Destaca Fabrício Rocha, um garoto do Rio Grande do Norte que se mudou com os pais para Maresias. Ele usa as três etapas do Grom Search para analisar o desenvolvimento do grommet. Estreou na etapa da Joaquina (SC), melhorou e pegou a manha da competição no segundo evento, em Búzios (RJ). Já na etapa final, em Maresias (SP), foi campeão sub-12 e quarto lugar na sub-14. “Nós os escolhemos porque vimos um potencial de melhorarem. Em pouco tempo, vocês verão esses atletas na ponta.”

Guilherme Fernandes treina em Maresias. Foto: Aleko Stergiou/Instituto Medina

Presidente do Instituto, Simone Medina observou de perto o avanço de Fabrício: “É um cara que ataca melhor as ondas hoje, com um pouco mais de precisão”. Reparou também na evolução da filha Sofia, vice-campeã do circuito no Sub-12; de David Reina, que “está mais solto, seguro e surfa bem melhor”; Fernando John John, “super corajoso, dropando umas ondas grandes e muita mudança na linha de surf”.

De segunda a sexta-feira, os 38 surfistas, entre 10 e 16 anos, passam um período do dia na escola e outro no Instituto, onde contam com aulas práticas e teóricas, surf e academia, palestras. Aos finais de semana, treinamentos especiais, ações sociais com as famílias, reuniões mensais com os pais e festas comemorativas.

O que Caio Costa mais gosta são as simulações de bateria. O clima de competição, diz o garoto de 15 anos, sempre o faz evoluir. Depois das baterias com atletas de alto nível, todos com a lycra do Instituto, há conversas de aprimoramento, com análises de vídeos, com os técnicos Leco, Abolição, Polaco e Jilmar. 

Caio cresceu em São Sebastião, no litoral norte paulista, onde se acostumou com ondas pesadas e tubulares, como Paúba e Maresias. Costumava pegava onda depois da escola, mas agora percebe mais comprometimento. Direto dividia o lineup com Gabriel Medina. “Ele sempre foi um cara legal comigo, cumprimentava, conversava.” Para garantir a vaga no Instituto, Caio conquistou a categoria sub-12 e foi vice na sub-14 do Circuito Medina/ASM 2016.

Caio mira o mesmo objetivo de Gabriel: entrar no CT e se tornar campeão mundial. Agora com a mesma estrutura do ídolo, já sentiu melhora no condicionamento físico e no inglês, além de aprender sobre tecnologia, apneia e natação. “Tenho deixado meu surf mais power e de linha, mas tenho me dedicado bastante em melhorar nos aéreos e em ondas mais fracas e cheias.” Além do Instituto, ele tem o suporte do shaper Adriano Nunes e das filmagens do pai. “Agora eu sei da importância de ser um atleta. Além desse suporte, uma das coisas principais é ter garra e acreditar sempre que é possível.”

Caio Costa, atleta do IGM. Foto: Aleko Stergiou/Instituto Medina

Já o paranaense Ryan Coelho, surfista e skatista de apenas 9 anos, achou desafiador encarar as condições extremas de Maresias, na terceira etapa do Circuito Medina/ASM. Um dos caçulas da equipe, Ryan se mudou com os pais – ele advogado e corredor, ela preparadora física – para Maresias. “Meu pai e minha mãe sempre foram atletas e eu cresci nesse universo”, conta o garoto, “mas o Instituto é mais específico para o surf, o que veio para somar mais e mais.”

 Ryan já se sente mais preparado física e mentalmente. Percebe isso “principalmente na autonomia de surfar sozinho ondas maiores”. Ele gostou das novas amizades e observa que entre a galera um puxa o ritmo do outro. “Como sou um dos mais jovens, acabo recebendo um carinho especial de todos.” Cama elástica e treino na água são as atividades das quais mais gosta.

“Para ter sucesso no surf,” diz Ryan, enquanto voltava de sua primeira surf trip para a Indonésia, “um atleta precisa treinar muito, ser dedicado, disciplinado e, principalmente, surfar porque realmente gosta. Também é necessária uma equipe de profissionais para ajudar o surfista no seu desenvolvimento.”

Charles se impressionou com a vontade e a postura dos 38 surfistas, que visualizam se tornarem campeões e confiam no trabalho do Instituto. “Esse ‘acreditar’ que é a nossa gasolina para levantar todo dia e ajudá-los. Eles estão dando o máximo deles, e isso vai fazer a diferença”.

Simone já revela alguns projetos futuros do Instituto Gabriel Medina: treinamentos de elite para maiores de 16 anos que seguirem carreira,  surf camps para atletas de fora e intercâmbios com outros centros de treinamento pelo mundo.

Gabriel se sente orgulhoso por realizar seus maiores objetivos com tão pouca idade: o título e o instituto. “Eu tinha o sonho de competir com o Kelly, o Mick. Era distante, mas se tornou realidade. Basta querer, basta sonhar”, diz o campeão. “Todo mundo feliz, com força de vontade. Estão se divertindo, mas lá no fundo têm uma responsabilidade. Com isso que fico feliz, porque eu era assim.” HC