Por Kátia Lessa | Retratos Marcos Villas Boas
HC #322, outubro/2016

Um carrinho de bebê divide espaço na varanda com pranchas, long johns molhados e vai e vem de cachorros, amigos, gatos e xícaras de café. A casa dos Gouveia, em Florianópolis, nunca fica silenciosa, nem quando o mais novo membro da família, a pequena Malia, que sequer completou 1 ano, dorme na sala.

Malia é filha de Ian Gouveia e Mayara Hanada (filha de Gil Hanada, surfista e fotógrafo de Maresias, e irmã gêmea de Tayna, namorada de Gabriel Medina) e primeira neta do surfista paraibano que é um dos mais respeitados no país.

“Não liga não. Aqui em casa é assim mesmo. Desde que os meninos eram pequenos a gente não tem frescura com criança não. Eu e Fabio sempre carregamos as nossas crias pra tudo quanto é canto”, diz Elka, que não gosta de ser chamada de avó e já tatuou o nome da pequena no corpo.

Quando começou a correr o circuito, Fabio foi pioneiro não apenas como brasileiro respeitado em ondas internacionais, mas também por ter sido um dos primeiros surfistas a viajar com a família para as competições.

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Malia, filha de Ian Gouveia e Mayara Hanada, no aconchego dos avós, Elka e Fabinho.

Casado com Elka há 25 anos, ele é pai de Igor, Ian e Ilana, que aos cinco meses já circulava entre África do Sul, Hawaii e Austrália e já tiveram até mesmo o 11 vezes campeão mundial Kelly Slater como babá enquanto o pai estava na água disputando uma bateria. “Já aconteceu diversas vezes de algum filho fazer cocô bem na hora que Fabinho deveria estar entrando no mar, mas ele é tranquilo. Trocava a fralda e ia”, diz a parceira.

Encerrada a carreira depois de problemas nas costas, Fabio não tem vergonha alguma em dizer que sem a família por perto – e a comida de Elka – não teria encarado o circuito.

Dos três filhos, apenas Ian seguiu a carreira do pai. “Eles tiveram uma infância muito rica porque aprenderam na prática muitas coisas que os amigos viam só na escola. Aproveitávamos as viagens para levar as crianças aos museus das cidades, zoológicos. Mas viver no circuito não significava moleza, eles sempre tiveram que tirar notas boas, tinham horário, etc…”, diz o surfista.

Enquanto ajuda a cuidar dos planos do filho surfista, que está louco para entrar no CT, Fabio agora está focado na carreira de shaper. Em um final de semana entre quedas, shaperoom e carinhos na primeira neta, ele falou com a HARDCORE da forma como sempre viveu, durante um almoço, de família, claro.

Fabio Gouveia, 47, um dos maiores ícones do surf brasileiro, com o seu filho Ian Gouveia, 24, num dia em família, em Florianópolis.

Fabio Gouveia, 47, um dos maiores ícones do surf brasileiro, com o seu filho Ian Gouveia, 24, num dia em família, em Florianópolis.

Como é que está a vida de avô?

FG: A ficha ainda não caiu. Acho que só vai cair quando a barriga crescer um pouco mais. O Ian diz que já quer colocar a Malia na água. Eu não vejo a hora de brincar com ela no mar. A Elka não quer ser chamada de avó, mas eu não ligo. Assusta um pouco ver que o tempo passou tão rápido, mas é bom. 

Você e a Elka tem uma sintonia muito grande. São quantos anos de casado?

FG: Ano que vem são 25 anos. Nós nascemos no mesmo dia, 29 de agosto, gostamos das mesmas coisas, moramos na mesma cidade quando éramos crianças mesmo tendo nascido em lugares tão distantes, eu em Bananal e ela em Recife, porque nossos pais foram transferidos para Belo Horizonte. Esse encontro estava escrito. 

Elka: Somos tão unidos que toda vez que ficava grávida eu descobria porque ele sentia desejo. Ele dizia que estava com desejo de milkshake de mangaba, eu fazia o teste e… neném. Nunca deu errado. Quando ele falou isso da última vez minha menstruação nem estava atrasada ainda. É uma coisa doida nossa sintonia.

Como vocês se conheceram?

FG: Foi em um camping em Maracaípe. Eu tinha ido surfar e a Elka era bodyboarder e também estava por lá. A família dela era muito mais surfista do que a minha. A tia da Elka foi uma das primeiras surfistas mulheres do Brasil, lá em casa meu pai era agrônomo e minha mãe professora.

Elka: Eu estava entrando no mar e ele disse: “Nossa… Que bundinha linda… Acredita?” Mostrei a língua para ele, mas ele não largou do meu pé e começamos a namorar com 16 anos.

Você foi o primeiro surfista a rodar o circuito com a sua família, muito antes dos clãs do Gabriel e Filipinho, que estão sempre juntos nas etapas. Como vocês foram recebidos?

FG: O povo me achava doido porque era aquela época que os caras queriam curtir as festas, à noite. O circuito não era tão profissional quanto é hoje, além disso, sempre sofri com a barreira da língua e da vergonha. Era meio bicho do mato e minha vida não é nada sem a minha família. Eu ficava aperreado longe deles, me sentia sozinho, não tinha vontade de competir. Pra mim não fazia sentido nenhum ficar viajando longe deles. Graças a Deus eu tive um patrocinador que entendeu isso, caso contrário teria largado o circuito muito antes. Tenho muita sorte de tê-los na minha vida.

“A Regina Casé brinca
que eu escapei de ser
pedreiro. Outro dia estava
reformando a nossa casa
aqui em Floripa e quando
me vi carregando saco de
areia, tijolo, cimento,
lembrei disso”.
– Fabinho

Foto: James Thisted

Você acredita em sorte?

FG: Acredito. Eu nem jogava que era para não gastar. Uma vez eu participei de um consórcio para comprar uma caminhonete e logo na primeira rodada me chamaram para fazer o sorteio e eu tirei meu próprio nome. No dia seguinte perdi a bateria. Com o meu time de futebol é a mesma coisa: se o Sport ganha, eu perco. Agora que não surfo mais eu jogo na Mega-Sena e tenho certeza que não ganho porque gastei a sorte no mar.

Elka: E no amor. Quem perde no jogo é porque gastou a sorte no amor, né Nego?.

As crianças pequenas não atrapalhavam a concentração para as provas?

FG: Sem eles era muito pior, sempre me senti mais forte com minha família por perto. Mas claro que era uma aventura. Uma vez em J-Bay meus dois meninos tiveram caxumba. Um na primeira semana e o outro na segunda. Eles se revezavam na guardas da casa para não deixar quem estava doente sair e contaminar todo mundo. E os outros surfistas só cascavam deles do lado de fora da janela.

Elka: Tinha gente que gostava de ter uma família por perto. O Kelly Slater era um deles. Ele cuidava das crianças para eu poder filmar o Fabinho, quando ele entrava na bateria. Ele sempre amou crianças e toda vez que me encontra ele pergunta como estão os “meninos”. E hoje o Ian ta aí… doido para entrar no CT e poder surfar contra ele. Ganhar dele que nem o pai.

Você ganhou mais do Kelly do que ele de você, não?

FG: Na época do circuito sim, tipo o Mineirinho. Em 1992 fui surfar contra ele e tomei duas lavadas feias. Depois disso a galera me chamava de Mr. Combination. Tinha ficado tão arrasado que prometi que nunca mais ia perder feio daquele cabra da peste.

Elka: Nesse dia que ele ficou arrasado, ele voltou pra casa e tomou tanta cachaça… Minha nossa senhora…

Vocês não conviviam com os gringos?

FG: Além da língua a gente tinha uma turma bem unida com brasileiros, tipo o Renan Rocha e o Piu Pereira. Mas sempre tinha gringo gente boa, como o Shane Dorian, Brad Gerlach, Tom Curren… Com o Tom Curren eu trocava muita ideia sobre família. Ele sempre foi um cara na dele, enigmático, mas era o meu ídolo.

Elka: Tem outra coisa também, nós nunca nos preocupamos em puxar o saco de gringo, mas também nunca tivemos problema com ninguém. Quem era gente boa curtia com a gente. Inclusive a “night”, porque além de tudo a gente gostava de uma festa, principalmente com os australianos.

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Família “Surf” Gouveia: o casal Mayara Hanada e Ian, a neném Malia, os avôs Fabinho e Elka, e os filhos e irmãos, Ilana e Igor Gouveia.

Quem eram seus ídolos quando você começou a surfar?

FG: Lá fora o Tom Curren e Tom Carroll. Kelly veio depois, então era uma relação diferente. Aqui no Brasil senti isso quando conheci o Picuruta Salazar, Pedro Muller, o Felipe Dantas, Rico de Souza, Ricardo Bocão e todos esses caras que eu só tinha visto nas revistas e na TV.

Quando você achou que queria ser surfista profissional?

FG: Durante o Open Pro em 1986. Eu ainda estudava. Tinha ganhado um campeonato importante na Paraíba e recebi uma passagem para o Peru. Mas eu era bicho do mato e tinha medo de viajar sozinho. Então desmembrei essa passagem pro sul para viajar com o cara que foi meu primeiro patrocinador.

Você se formou na escola?

FG: Sim, mas o terceiro ano só passei comprando prova porque comecei a viajar para pegar ondas perfeitas. Para os meus filhos eu peço para estudar, porque hoje tudo é muito competitivo e se eles não se derem bem já podem ter outra alternativa na vida.

Elka: As crianças nunca me deram trabalho. O Igor gosta de política, sociologia, só falta comer livro de tanto que gosta de ler. A Ilana quer ser comissária de bordo. Acho que tomou gosto por viajar que nem a mãe.

Você não cansava de viajar tanto ao lado do Fabinho?

Elka: Nem um pouco. Nós sentimos muita falta do circuito até hoje. Não sou apegada a nada, vivo pedindo para o Fabio para mudarmos de cidade. Agora estou querendo morar em San Diego na Califórnia, mas ele não está muito animado não, porque montou a sala de shapes dele e aqui fica mais perto da neta que agora mora em Maresias.

Malia, Ian e Mayara.

Malia, Ian e Mayara.

Com o que você trabalharia se não tivesse apostado no surf, Fabinho?

FG: A Regina Casé brinca que eu escapei de ser pedreiro. Outro dia estava reformando a nossa casa aqui em Floripa e quando me vi carregando saco de areia, tijolo, cimento, lembrei disso. Mas acho que na verdade nunca ia conseguir escapar do esporte. Eu andava muito bem de bicicross. Talvez fosse profissional do BMX, eu até ganhei uns eventos na Paraíba, sou competitivo por natureza.

Quem foi o surfista que mais te tirou o sono em competições?

FG: Para chegar no Hawaii e surfar na minha época era muito diferente do que é hoje. Você entrava na água e os caras já te colocavam para correr, puxavam nossa orelha, não tinha papo. Na verdade, minha maior richa era com o Teco (Padaratz). Éramos parceiros, tínhamos o mesmo patrocínio, mas sempre rolou essa estória de um querer ser melhor do que o outro. Quando a Elka não ia em alguma viagem eu acabava ficando o tempo todo com o Teco, a pressão era ainda maior. Viajar com a família me fazia esquecer disso também.

Elka: Fabio sempre foi muito tranquilo em competições. Já eu ficava para morrer. E agora que ele parou é assim com Ian, eu brigo com juíz e tudo, então parei de ir aos campeonatos (empolga-se falando e queima o arroz que estava cozinhando). Acho que é minha sina cuidar e sofrer com esses homens.

Ian: (escuta a conversa e entra na sala com a bebê) Ela era tipo o Ricardinho, pai do Filipinho. Mãe judia. Pedi para ela não ir mais porque levava advertência de tanto que ela brigava.

*Elka vem de uma familia de judeus…

“Sorte! Nunca senti peso
nenhum. Outro dia estava
surfando na Austrália
e vi o Damien Hobgood
colocando a filha dele
pra surfar. Dei um grito
quando ela entrou na onda
e ele disse: ‘Eu lembro
tanto de quando o seu pai
fazia isso com você’”.
– Ian Gouveia
sobre ser filho de Fabinho

 

Foto: Tom Toledo

Vocês seguem a religião?

Elka: (enquanto começa a fazer um arroz novo) – Sou criada no judaísmo, gosto, mas sou mais ligada no espiritismo. Acreditamos em Deus, mas não seguimos nenhuma religião ao pé da letra. Acho que somos a única família não evangélica que sobrou no circuito.

Vocês acham que o fato do Ian já ter ido para os lugares de competição desde criança é uma vantagem?

FG: Acho que sim. Ele lembra das dicas que eu dava e demora menos para se adaptar aos lugares. Quando a gente começou a viajar era tudo muito estranho, eu morria de medo. Não gostava de sair de casa, então comecei a levar a casa comigo.

Elka: Ian não quer nem ter técnico. Se tem alguma dúvida ele pergunta para o pai. Eles vão para Bali juntos agora. Estão focados em trabalhar a entrada de Ian no CT. Depois de 4 anos no WQS, ele já está pronto.

Ian: É, está na hora. Quero entrar logo para surfar contra os caras que surfavam com meu pai. 

Ser filho do Fabinho é um peso ou uma sorte?

Ian: Sorte, claro. Nunca senti peso nenhum. Outro dia estava surfando na Austrália e vi o Damien Hobgood colocando a filha dele pra surfar. Dei um grito quando ela entrou na onda e ele disse: “Eu lembro tanto de quando o seu pai fazia isso com você”. Já-já sou eu fazendo isso com a Malia. Se bem que tenho um palpite de que ela vai ser snowboarder, sabia? Se ela decidir eu vou junto. Amo neve.

Ian: Mãaaaae, você queimou o camarão também? HC

  • James B

    A família Gouveia é uma referência no surf e na vida. Uns 20 anos atrás eu estava em Pipa e, entrando num comércio, vi o Fábio Gouveia, que já era meu herói no surf! Quando eu já ia lá falar com ele, a Elka entrou e deu um cagaço nele porque ele tinha comprado uns picolés pras crianças! Quase eu morro de rir depois, pensando: “o cara é meu herói no surf, mas é gente como a gente!!”.
    Respeito máximo!

  • Jonathan Ignaczuk

    Esse cara é um mito.
    Sem duvidas esta entre as pessoas que eu mais admiro no esporte