Estou apaixonada…

Em Bali para a minha quarta temporada na Indonésia, vivenciei umas das melhores viagens da minha vida. Foi tudo como um conto de fantasia, curto como uma história tem que ser – que dure eternamente. O motivo foi muito especial: curtir a minha lua de mel!

Não poderia ter sido melhor, dez ensolarados dias no paraíso. Falando em Lua, ela estava lá linda e cheia, a lua especial de Buda, a mais brilhante de todas, conectando o cosmo com a nossa perfeita sintonia.

Nessa comunhão de almas e corpos, a previsão das ondas diziam que chegaria um swell clássico de 2,8 metros com 17 segundos. A expectativa era grande, assim como a adrenalina para o surf.

Bingo! Amor e ondas! No primeiro dia rolou um surf divertido de single fin em Temples, uma onda muito divertida que quebra lá para cima do point de Uluwatu, mais longe do crowd. A variação de maré estava bem grande, e a vibe de poder surfar naquele lugar mágico, com a melhor companhia do mundo, era ainda maior.

Durante a noite, suspirante, no alto do cliff de Uluwatu, dava para ouvir as ondas quebrarem cada vez mais fortes. A movimentação também apontava que várias pessoas já estavam se agilizado para pegar o swell em outras ilhas.


Na manhã seguinte, “Ulus” estava grande, maré cheia e uma correnteza forte. Era dia de quebrar Padang Padang! So good they named it twice. Sempre sonhei em surfar essa onda, a Rainha de Bali, umas das ondas mais desejadas do mundo.

Foi só o tempo de tomar café da manhã para esperar a maré começar a secar e ir pra água! Entrada tranquila pelo canal, mar em transformação, crowd relativamente suave, sobravam umas ondas. Mas o fato era que o swell ainda não tinha se encaixado na bancada. Até que a maré foi secando, secando mais e mais e o swell encostando. Cada série vinha maior e mais perfeita. Que onda!

A esquerda mais linda, tubular e sinistra que já surfei. Padang on fire! O mar ficou clássico e o crowd intenso. Todos os nativos mais locais estavam na água. Fora os cascas-grossas, a essa altura da paixão havia mais uns 50 caras no pico, e eu era a única mulher ali. Estava foda pra pegar uma boa. Vinham umas séries de 8 a 10 pés, a bancada já estava exposta com os corais afiados, parecia um mesa cirúrgica com a maré seca. E os tubos mais incríveis que já vi quebrar –rodavam milimetricamente perfeitos. Lindos demais e, ao mesmo tempo, muito assustadores.

Só queria pegar uma da série, pegar o tubo da vida, mas não sobrava uma. Os caras estavam se matando embaixo do pico e nas melhores da série só vinham os locais. As rabeadas começaram a acontecer, às vezes até entre eles mesmos.

 

Eu estava lá, tentava respeitar o pico e não entrar na onda de ninguém, porque ali o negócio é sério, não dá pra brincar com aquela bancada. Enquanto os surfistas locais davam aula de entubar em Padang, eu também via cara saindo da água todo arranhado, pranchas quebradas.

Fiquei três horas dentro do mar para conseguir pegar poucas ondas. Na minha melhor onda, um dos caras que me conheceu ali no meio do crowd me rabeou e eu fui parar quase em cima do corais. Foi por pouco que não me machuquei feio. Lá se foi o meu tubo.

Saí da água com uma conclusão: sem sombra de dúvidas, foi uma das sessions mais iradas da minha vida, quero voltar muitas vezes para pegar os tubos de Padang. Mas o maior aprendizado foi saber me impor com mais firmeza e confiança no meio de um crowd sem noção, em uma onda que dá medo. Saber o limite entre o respeito e a atitude de mostrar que, mesmo sendo a única mulher ali no meio, eu pertenço àquele lugar. E quando a onda vier para mim, ninguém vai me atrapalhar enquanto eu botar pra baixo em busca do tubo da vida.

A vida nos ensina muito, a todo hora, todo minuto, segundo, milésimo, um frame – assim como um amor eterno. HC

Matéria publicada na HARDCORE #329.