Texto e fotos por Diogo D’orey
HC #329, junho/17

Desde que eu me entendo por gente, sempre sonhei em achar uma parceira que me completasse. Confesso que, no início, qualquer uma servia. Eu não sabia muito bem quem eu era, quais eram realmente as coisas importantes para mim, meus gostos, manias. Meus valores ainda estavam em formação.

Hoje em dia, com 35 anos, eu posso dizer que tenho uma ideia do que seria uma parceira ideal.

Certa vez, meu irmão, Fred D’Orey, escreveu sobre a “mulher âncora e a mulher pipa”. Segundo a descrição, cheia de humor até, dizia que uma te afunda, te limita, te irrita; e que a outra te levanta, te ajuda, te empurra pra cima. Desse artigo, a ideia cresceu, e um universo de possibilidades entrou no meu balão de pensamentos.

Chegando ao presente, saindo um pouco do pessoal que carrega essa introdução que você acaba de ler, tenho uma bela história pra contar.

Ele é de salvador; ela, de são paulo. Ambos com pais big riders, ambos moldaram seu surf nos breaks do Hawaii – assim como a paixão pelas ondas grandes.

Depois de uma semana ao lado de Lapo Coutinho e Nicole Pacelli em Java, eu posso dizer que eles têm algo bastante especial. No caso deles, não são os opostos que se atraem, mas sim as semelhanças.

Lapo e Nicole amam viajar pelo mundo em busca de ondas gigantes, e isso por si só já é um achado.

Imagine quantas mulheres estão disponíveis por aí, que gostariam de surfar com você nos maiores dias de Jaws, Mavericks, Waimea ou qualquer outra onda gigante pelo mundo.

Não muitas, isso eu posso afirmar. Mas a maior pergunta, no caso dessa sinergia acontecer: quantas delas vão se apaixonar por você, e vice-versa?

Lapo Coutinho, nascido em Salvador, aprendeu a surfar nas marolas de Ilhéus, mas a sua história de surf está estritamente ligada ao Hawaii.

Seu pai, o Lapo matriz, se mudou para Oahu quando ele ainda era um pivete, e em todas as férias escolares, era pra lá que o grommet ia treinar e aprimorar a sua paixão pelas ondas grandes.

Aos 19 anos de idade, Lapo se mudou de mala e cuia para o Hawaii, e, desde de então, é uma das maiores referências do Brasil quando o assunto são ondas de peso.

Entre swells gigantes, Lapo Coutinho tem se dedicado aos tubos: seja as esquerdas quilométricas de Skeleton Bay, na Namíbia, ou as direitas rápidas de Java. Acima, Nicole, a caminho do trilho.

Nicole, nascida em São Paulo, aprendeu a surfar em Maresias. Ela sempre acompanhou a paixão do pai pelas ondas, o legend Jorge Pacelli.

Viajou desde pequena para o Hawaii, onde aprimorou ainda mais a sua aptidão por ondas grandes.

Nicole foi o primeiro ser humano a se aventurar em Jaws de stand up paddle, sua prancha predileta. E hoje em dia, ela é uma das mulheres mais respeitadas quando o mar sobe pra valer.

Para quem encara Jaws de stand up paddle, Nicole Pacelli tira com tranquilidade os tubos de Java. Abaixo, Lapinho, também à vontade.

A onda que estávamos em Java é um slab de direita bem rápido e raso. Ondas cavadas e lip que se projeta à frente que, diga-se de passagem, não são nem um pouco fáceis para SUP.

Mas Nicole não é uma surfista comum, e aí que está a diferença. Desde do primeiro dia no pico, percebi que ela, mesmo com um pouco de respeito, se sentia bem à vontade dentro d’água.

Já Lapo estava em casa. A onda servia muito bem para o seu surf rápido e atirado, e as fortes rotações de água caíram como uma luva sua performance.

A quantidade de tubos que fotografei dele bem que preencheria, com merecimento, toda uma edição da hardcore.

Nicole e Lapo são o exemplo de que dividir a mesma paixão é a receita certa para um relacionamento saudável, verdadeiro e derradeiro. E como espelho, eles me inspiraram muito a ir em busca de uma fotógrafa que ame clicar tubos gigantes.