O carioca virou as costas aos padrões competitivos dos anos 1980 para manter o surf no underground. A história de Dadá virou documentário

 

 
Dadá Figueiredo adotou um estilo punk nos anos 80, após uma viagem para a África do Sul. Foto: Arquivo/Revista Trip

Por Kevin Damasio

Dadá Figueiredo foi chamado ao palco durante o Staff Poll, que premiava os 10 melhores surfistas brasileiros, em 1985, no Rio de Janeiro. Ele subiu, recebeu o troféu de quarto lugar do ator global Kadu Moliterno e exclamou: “Morte aos parasitas! Filhos da puta!” – e arremessou o prêmio ao chão. O choque pela atitude do carioca provocou reflexão. Dadá sentia-se usado pela forma como o surf era conduzido. Criticava a dimensão dos grandes campeonatos diante dos baixos salários que os atletas recebiam. Os caminhos que ele trilhava no surf ilustravam tal apelo. Dadá gostava do esporte e queria manter sua essência underground. É um dos surfistas brasileiros que melhor representou a atitude hardcore. Não por acaso, estampou a capa da HC número 11, de maio de 1990, com uma de suas marcas registradas: a então ousada batida vertical de backside. Em 1992, foi eleito pela HC “O Surfista Mais Hardcore do Brasil”. 

Dadá, um carioca da Barra da Tijuca nascido em 1965, fazia as próprias pranchas quando ainda tinha 15 anos de idade. As imperfeições dos shapes não o impediram de impressionar nos campeonatos nos anos 1980, mas ele não se enquadrou na cena competitiva. Nas palavras do nosso colunista Julio Adler, “era o cara que tinha potencial para ganhar, mas nunca ganhava”. Inspirado no skate e embalado pela atitude punk, seu estilo agressivo e ágil de espancar as paredes estava muito à frente do atual momento do esporte. Na época, escolher a melhor onda contava mais ponto do que as patadas inovadoras no lip. Então, ele desencanou de competir e mudou sua trajetória.


Dadá estampou a capa da edição 11 da HC, em maio de 1990. 

 

Trilhas punk e hardcore ditaram o ritmo com que Dadá seguia a vida. Ele deixou de lado a competitividade que o surf adquiria para seguir seus ideais, em uma corrente trash que também era preenchida com muitas festas, drogas, álcool e rock. Depois que voltou de um campeonato da ASP em Durban, África do Sul, adotou novo visual: moicano, jeans, coturno, além de vestir-se todo de preto.

Ele não precisou disputar campeonatos para ser o surfista mais bem pago do país, no final dos anos 1980. Nas noites cariocas, vira e mexe ele se enfiava em bate-cabeças de shows de bandas punk. Como ele mesmo diz, “eu era muito punk para os surfistas, muito surfista para os punks”. E foi por um grupo de punks que o campeão carioca de surf foi esfaqueado em outubro de 1990 – e viu a morte de perto. Dizem que as 12 facadas foram em retaliação a uma briga em que se envolveu em um show da banda Cólera, no Circo Voador. “A garra que eu tinha para pegar onda foi a garra que eu tive para não morrer”, disse ele no recém-lançado documentário Radical – a controversa saga de Dadá Figueiredo.

Inspirado no skate e na atitude punk, seu estilo agressivo e ágil de espancar as paredes estava muito à frente do atual momento do esporte.

Dadá simboliza um dos personagens mais emblemáticos da cultura hardcore dos anos 1990, alinhado à fundação da Revista HARDCORE, no ano de 1989. Hoje, o termo ganhou novas interpretações e atitudes e abrange um grupo muito maior de exemplos, muitos deles espelhados em abordagem e ataque saudável às ondas.

Radical – a controversa saga de Dadá Figueiredo


Dadá é um dos surfistas que melhor representou o espírito hardcore, dentro e fora d’água. Foto: Alberto Sodré

No filme, Dadá e pessoas ligadas a ele contam sobre o abismo em que o carioca mergulhou quando se tornou dependente de cocaína, nos anos 1990, e como se livrou do vício ao se internar, aconselhado pelo irmão, e, após algumas recaídas, tornar-se religioso.

Radical ilustra bem as diversas fases da vida de Dadá Figueiredo. Consegue equilibrar o peso de cada etapa: a ascensão dele no surf, o caminho alternativo no esporte, a adesão à atitude punk, a dependência química e a recuperação. 

Diretor do filme, Raphael Erichsen morou na Espanha e na Inglaterra, onde começou a trabalhar com documentários, como Superstonic Sound: The Rebel Dread, sobre Don Letts, músico britânico conhecido por reunir punk e reggae. De volta ao Brasil, em 2009, queria produzir um filme que relacionasse o Rio de Janeiro com o punk. “Dadá era o cara perfeito para isso”, conta ele. Na entrevista a seguir, Raphael revela como se envolveu com a história de Dadá ao longo da produção de Radical, premiado como melhor filme estrangeiro no Long Beach International Film Festival, em Nova York. Desde 2 de outubro, o documentário está disponível para locação e compra no iTunes e no Net Now.

HC: O que mais chama sua atenção na história de Dadá Figueiredo?
Raphael Erichsen: A conexão entre surf e punk foi a primeira coisa que me intrigou. Taylor Steele introduziu punk rock e hardcore nos filmes de surf na Califórnia. Mas aqui no Brasil, durante os anos 1980 e 1990, parecia que o surf só se conectava com rock australiano e reggae. Então, procurei um cara que simbolizava a rebeldia, o antissistema. Dadá, o “antitudo”, me parecia um bom ponto de partida para contar uma história. Como o Marcos Sifú fala no filme, o Dadá foi o primeiro cara a mostrar que surf não era só aquela coisa mística e mágica. Que também podia ser trash, underground, hardcore.

Como você o definiria?
Não tenho dúvida de que o Dadá vai ficar marcado na história do surf brasileiro como o primeiro surfista que peitou o “ser” surfista. Já era um esporte rebelde por natureza, não dá para negar. Mas o Dadá era pior que os rebeldes do surf. Ele não se via representado pelo esporte. Pode-se dizer que era um visionário, porque não acreditava no sistema em que o surf se enquadrava. Muito antes de o freesurf ser opção, ele já não estava nem aí para os campeonatos. Ele se divertia mesmo nas expression sessions.


A radicalidade do skate influenciou o surf de Dadá, uma linha muito à frente do que se fazia nos anos 1980. Foto: Alberto Sodré

Durante a produção, houve alguma situação em que passou com Dadá que, para você, melhor ilustra a vida dele?
O Dadá é uma lenda. Antes de conhecê-lo, já tinha ouvido falar de várias histórias sem pé nem cabeça. Nas primeiras entrevistas, quando lhe perguntava, ele não sabia responder, porque simplesmente não lembrava. Ele apagou da cabeça parte da história e não conseguia dizer se tal fato aconteceu ou não. Por outro lado, ele me contava histórias que pareciam ainda mais inacreditáveis do que as lendas. Capotagens de carro, vandalismo na infância, problemas com a polícia… Acho que depois desse filme o Dadá tem que finalmente lançar um livro. Não dá para contar tantas histórias em uma hora e meia.

“Dadá vai ficar marcado na história do surf brasileiro como o primeiro surfista que peitou o ‘ser’ surfista” – Raphael Erichsen

Sua percepção sobre ele mudou desde o início do projeto até a finalização?
Quando comecei a fazer o filme, só o conhecia superficialmente. Sabia que deveria esperar um cara durão, áspero, que não curte a mídia em geral. Me aproximei pelas nossas afinidades. A gente trocava ideia de música. Com o tempo, ele deixou eu me aproximar e fui entendendo ele – o que pensa, o porquê da sua rebeldia… Hoje em dia vejo que na época a mídia o pintou como um cara muito mais violento do que de fato era. Quem o conhece, sabe.

Encontrou dificuldades ao longo da produção do documentário?
Sem dúvida! Esse filme demorou cinco anos para ficar pronto. É um projeto pelo qual temos muito carinho, mas que foi muito difícil. Tentamos uma série de financiamentos, editais… tudo o que podíamos e não conseguimos nada. O filme inicialmente se chamaria “Necrose Social”. De cara, todos me falavam “como você quer conseguir apoio para o filme com esse nome?”. Conforme o documentário amadurecia, as pessoas começaram a enxergar que era um projeto sério. Temos hoje suporte da Vans, que também apoia o Dadá. Ganhamos um prêmio logo no primeiro festival de que participamos, nos Estados Unidos. Agora finalmente a coisa deslanchou.

 

*Esta reportagem foi publicada na HARDCORE 300, de outubro de 2014.
Confira aqui outros destaques da edição.
 

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