Por Kevin Damasio
HC #329, junho/2017

Retrato de capa: Graça Monteiro

Em 2011, o carioca iniciou um projeto para disseminar no Complexo do Alemão aquilo que transformou sua vida: o surf. Enquanto trabalhava como gerente do único cinema Da comunidade, na região de Nova Brasília, percebeu que várias crianças passavam o dia ociosas na Praça do Conhecimento. Ofereceu-se para lhes apresentar o surf.

Pegaram o ônibus e “viajaram” até o Posto 6, da Barra da Tijuca. Conforme o número de alunos aumentava, o projeto se mudou para o Posto 12, da Praia do Recreio, e contou com o suporte técnico do Centro de Aprendizagem e Desenvolvimento do Surfe (Cades).

Todo sábado de manhã, Wellington e os professores do Cades dão aula para 20 jovens surfistas. Se o swell estiver grande demais, o treino acontece fora d’água, no Cades, com exercícios funcionais e skate.

O Surf do Alemão virou documentário, com produção da Abaetê Filmes. A previsão é que estreie até o início de 2018.

Nas gravações, as crianças viajam de van pelo litoral e descobrem outras ondas, em Arraial do Cabo (RJ) e em Ubatuba e Maresias (SP).

“É um longa-metragem que vai impactar muita gente, com um novo olhar sobre o Complexo do Alemão”, acredita Wellington.

Para pegar onda com o projeto Surf no Alemão (abaixo), os jovens surfistas precisam ir bem na escola e ajudar em casa. Foto: Eduardo Dornelles/Abaetê Filmes

HARDCORE: Sobre esse novo olhar do Complexo do Alemão, que mensagens o filme quer passar?

Wellington Cardoso: Hoje, quando se ouve falar do Complexo do Alemão, está ligado diretamente à violência. Foi lá que eu cresci, tive momentos maravilhosos. E, ao trabalhar fora ou sair para passear, falar de onde sou, as pessoas me olham: “Como você consegue viver lá? Como sobrevive com um caos daquele?” É muito triste.

Para que o filme Surf no Alemão? Porque o olhar de um surfista de alma transcende ao cuidado com o próximo, com a natureza. Então acredito que se resuma a uma frase muito bonita de Madre Teresa de Calcutá: “Se a violência aumenta, e vocês querem parar com a violência, vá para casa e ame sua família.” O Surf no Alemão tenta resgatar o conceito familiar, nossa primazia.

O Cleber [Alves da Silva], um diretor amigo meu, ouviu falar do Surf no Alemão. O projeto não tem patrocínio, nenhum apoio financeiro. Tudo eu banco do meu bolso. Então ele falou: “Wellington, poxa, vamos procurar um patrocinador. Estou na faculdade de cinema e queria fazer um documentário sobre o Surf no Alemão”.

Começamos a gravar e tal. E saiu uma matéria minha no jornal O Globo, na coluna do Mauro Ventura. Três dias depois, a Globo Filmes me ligou, querendo saber mais. Nós fomos lá, conversamos e eles resolveram patrociná-lo – quebrando paradigmas, porque eles não faziam documentário.

O filme está lindo, com uma visão poética. Mostra que é possível. Por mais que resida em uma comunidade violenta, você pode conquistar os seus sonhos, como algumas crianças já têm conquistado.

Infelizmente, com essa crise perdemos muitas oportunidades de jovens aprendizes, mas a gente é muito otimista. Não paramos de incentivá-los a continuarem a estudar. Que enquanto alguns choram, outros vendem lenços.

Acompanho um pouco do dia a dia no Alemão pelo Coletivo Papo Reto, e vi que nos últimos tempos, desde a Copa do Mundo e da Olimpíada, se intensificaram bastante as operações policiais, né? Isso interferiu de alguma forma no andamento do filme e no dia a dia das crianças e dos jovens que participam do projeto?

É muito ruim, cara. Infelizmente isso acontece bastante, porque as operações policiais são feitas, às vezes, no horário escolar, durante a semana. E também acontece no final de semana. O projeto rola aos sábados de manhã, e a gente fica sem poder ir para a praia, sem poder trocar aquela ideia com as crianças. Isso é muito chato. Atrapalha.

Na verdade, eu coloco para elas que isso, o tiroteio, é um conceito que vem da falta de educação. Se a gente procurasse ter mais educação, conversação, diálogo, nada disso estaria acontecendo. 

Wellington Cardoso realiza reuniões mensais com os pais de seus alunos. Foto: Eduardo Dornelles/Abaetê Filmes

Enquanto crescia no Alemão, você já tinha essa visão da origem do problema?

Na verdade, o que acontece? Hoje tem acessibilidade, né. Na minha época, não havia muitas informações. Então, nossa cultura era somente aquilo do entorno, do que se vivia dentro do Complexo. Hoje, as coisas estão mudadas.

A grande questão das comunidades é ter pessoas que são referências dentro dela. E nessa referência, a gente precisa incluir o caráter, a idoneidade, ser um cidadão do bem.

Infelizmente, até hoje temos referências ruins também. Então, o papel da minha infância, que foi bastante difícil, foi ser conduzido por alguns vizinhos que me deram alguns toques. “Cara, estuda.” Minhas professoras…

Eu ensino as crianças a serem amigas dos professores. Porque a melhor coisa é ter amizade e conhecimento em todos os campos, em todos os setores, enfim. É o que a gente vem passando para eles.

No meu caso, eu percebia que alguns professores se achegavam perto de mim e falavam: “Você é um cara diferente. Postura. Seja do bem”. E aquilo fica plantado dentro da gente, né? A gente começa a dar ênfase a isso e é como uma semente: você rega e aí vai crescendo.  

Como foi sua infância e adolescência?

A minha infância foi muito difícil. Eu fazia jogo do bicho para as minhas vizinhas. Toda quarta, tem uma feira na minha rua. E eu descia, perguntava se as senhoras queriam ajuda para carregar as bolsas até suas casas, para ver se eu arrumava um dinheirinho para comprar algumas coisas para dentro de casa. Descia no final da feira também, para catar a xepa – alguns legumes que a gente cortava, para poder se beneficiar com uma sopa ou alguma coisa do tipo.

Na adolescência, comecei a trabalhar no Arpoador, com um vizinho que vendia sanduba na praia, o Jean. Ele foi o primeiro cara que falou para mim: “Cara, estuda. Não queira essa vida para você. Você pode estudar e ser um doutor e tal. Sempre estude.”

Ali tive meu primeiro contato com o surf. Eu dormia na praia. Quando acordava, já via os moleques entrando no mar, pulando pela Pedra do Pontal, no Arpex. E aí surgiu o interesse de ir surfar. Só que uma prancha é muito cara. Então consegui comprar um pé de pato usado e pegava jacaré. Essa era minha forma de surf.

Minha avó veio do Maranhão, trouxe minha mãe bem pequena. Minha mãe se separou do meu pai quando estava grávida de mim. Foi muito difícil para ela, porque teve que sustentar quatro crianças sozinha. Aí minha avó começou a dar uma força também. E conseguimos sobreviver no meio desse caos.

Minha avó tinha barraca de camelô no Méier [bairro na Zona Norte do Rio de Janeiro]. Começamos a trabalhar lá vendendo alho, relógio, calça jeans, cigarro do Paraguai. Foi bem complicado. Mas hoje, graças a Deus, a gente está conseguindo. Nenhum dos meus irmãos optou pelo lado ruim da vida. Todos são trabalhadores. O mais novo acabou de se formar em Direito. Isso é maravilhoso.

Como foi seu início no surf?

Foi na década de 1990. Eu tinha comprado de um vizinho da minha rua uma prancha da marca Lightning Bolt, monoquilha, mas não entendia de nada. Deixei na minha laje e, puts, a prancha evaporou.

Com o passar do tempo, procurei saber do mundo do surf. Campeonato, quando podia, eu assistia pela televisão ou pela internet. Aí fui trabalhar no cinema. Comecei a ficar muito estressado e lembrei que o surf traz uma calmaria. O mar tem esse poder. Então decidi fazer uma prancha.

Conheci um rapaz na praia que era professor de surf, o Claudio. Troquei ideia com ele, ele me indicou o shaper Marcos Villaça. Mandei fazer uma fun e dei meus primeiros passos para retornar ao surf. Até hoje não parei. Eu acordava 5h30 da manhã para estar às 6 e pouco na água, fazer um surf matinal e depois ir para o trabalho. Era maravilhoso, né, cara.

Acordar mais cedo. Ir para praia, pegar o nascer do sol. Você trabalha mais disposto, isso traz mais alívio ao seu dia. O surf é uma coisa que não tem como explicar. Só quem vive, quem surfa sabe qual é o prazer que dá.

Todo sábado, Wellington Cardoso e os professores do Cades levam os garotos do Alemão para a praia do Recreio. Foto: Eduardo Dornelles/Abaetê Filmes

Por que resolveu começar o projeto Surf no Alemão?

A ideia surgiu porque eu via a criançada ali em frente ao cinema no qual eu trabalho. Sou o gerente do cinema local lá no Complexo. As crianças ficavam até tarde na rua, sem perspectiva.

Até que um chegou perto de mim, o Mateus. Me pediu ajuda em uma situação. Eu ajudei. Aí voltou no dia seguinte, chorando. Fez uma pergunta bem perspicaz, de difícil resposta. Daí eu falei com ele: “Cara, como é que tu tá na escola?” “Ah, tô indo bem.” “Ó, vou surfar sábado, mandei fazer uma prancha para mim. Tu quer ir comigo?”

Ele quis. Meia hora depois, voltou: “Posso levar mais três?” Aí foram quatro no total, no primeiro sábado. E foi irado. Daí eu falei: “Poxa, tenho que fazer alguma coisa.” E partiu da ideia de começar a levá-los para a praia, de ônibus mesmo. Lá no Posto 6 da Barra. E foi tomando uma proporção. Vinham uns amigos pedir.

Só que comecei a cobrar também os estudos, frequência nas aulas, boas notas no boletim, comportamento. Com o passar do tempo, comecei a fazer reunião com os pais, para tentar fazer esse link familiar. E aí a coisa começou a fluir e se tornou o que é hoje.

Os pais e familiares tinham ideia do que era o surf?

Realmente, eles nem tinham ideia. Mas sabiam que era algo relacionado a praia, ao mar. Nós fomos esclarecendo isso mediante nossas reuniões mensais, que fazíamos dentro do cinema, com os pais, para saber como é que estava o comportamento das crianças dentro de casa, se realmente estavam ajudando.

Digo para eles que tem direitos e deveres. Então, para permanecerem no surf, eles têm que ajudar em casa. A visão do surf é essa: que possam ter dignidade, serem pessoas com caráter, voltados para o bem; ajudar as pessoas, sem receber nada em troca.

Isso que inflama neles o desejo de quererem estudar, tirar nota boa. Porque a gente mostra como é bom ser do bem, ter um caráter bom, integridade. Os parentes acabam comprando a ideia e ficam alegres.

Eles veem a atitude dos filhos mudarem dentro de casa, e descobrem um novo mundo, um novo prisma sobre o esporte, de como é importante ter uma conversação dentro da família sobre todos os assuntos. Então isso faz muita diferença para a família no geral.

Como é o trabalho com o Cades (Centro de Aprendizagem e Desenvolvimento do Surf, na Praia da Macumba)?

Conheci o Cades através de um dos nossos padrinhos: o André Menezes, surfista profissional, com vários campeonatos na sua carreira, campeão estadual e é deficiente auditivo.

“Wellington, conheço o pessoal do Cades. É uma base boa que você vai ter com Pedro Robalinho, Luisinho, Benjamin, o outro Luis, o Fabio (que é um grande professor nosso, amigo, que faz parte do projeto Surf no Alemão hoje).”

E eles abraçaram, cara. No começo, eu dava uma ajuda de custo, para caso um estrepe arrebentasse, parafina… Acabou que o dinheiro apertou e não tive mais como pagá-los. Então fiquei duas semanas sem ir com as crianças lá. Eles me ligaram: “O que houve que você sumiu?” Falei que estava sem dinheiro para poder honrar com o compromisso. E ele falou: “Não, cara, pode vir, a casa é sua.” Me senti muito acolhido por eles e desde então nunca mais saí de lá.

Depois, conheci o também nosso padrinho principal, o Phil Rajzman. O Phil transformou a vida de muitas crianças. Deu um incentivo muito bom. Das viagens, competições, ele sempre traz lembranças. Quando é possível, encontra-se com as crianças, fala, pergunta como está na escola, fala das experiências dele mundo afora.

E, cara, a gente fica maravilhado, né. É o primeiro brasileiro campeão mundial pela ASP. É importante ressaltar isso. De pranchão, em 2007. Muitos não sabem disso, mas as crianças do Surf no Alemão sabem. Hoje dão ênfase somente à pranchinha, mas o longboard é o surf clássico, onde tudo começou.

As crianças veem vídeos dele no YouTube e ficam encantadas. Não desmerecendo a pranchinha, claro. Tem aí o Gabriel Medina, o Filipe Toledo, que são uma potência. Mas, na pranchinha, as crianças se identificam muito mais com o Mineirinho, por causa da história: um cara que veio da comunidade, humilde, que mandou até um abraço para as crianças quando o Phil esteve com ele na Austrália. É uma realidade muito próxima delas, da infância e tudo mais.

A gente tenta mostrar para elas que, através do esporte, você realmente consegue muita coisa. Não só sucesso e ter condição financeira, mas o principal: paz interior. O surf proporciona isso e te faz se dedicar aos estudos, para, um dia, conhecer Maldivas, Indonésia, G-Land, Desert Point, Hawaii.

E é diferente de todos os esportes. As crianças gostam muito de futebol. Mas eu falo: “Qual é a possibilidade de vocês jogarem com o Neymar?” “Poxa, nunca vou jogar com o Neymar.” “Então, o surf proporciona de um dia eu estar na água e passar do seu lado o Kelly Slater.”

Assim que conheci o Gabriel Pastori. Meio metrinho de onda, meio fraco. Ele entrou no mar, falou: “E aí, cara tá rolando umas ondinhas aí?”. O cara puxou ideia comigo. Ficamos amigos. Trocamos WhatsApp. Ele foi dar uma palestra para as crianças. Depois chegou o Gordo [Felipe Cesarano] também, fez uma sessão de surf com a gente. Então, o único esporte no qual você tem acesso direto às referências, aos ídolos, é o surf.

Mais do que um esporte, o surf é um instrumento de construção de caráter e idoneidade. Foto: Eduardo Dornelles/Abaetê Filmes

Quais foram as transformações mais significativas que sentiu com o projeto?

As mudanças significativas que percebi foi no acesso dos pais com os filhos, e vice-versa. Uma troca, um carinho, uma conversação que não existia. Só existiam cobranças e intrigas, hoje perguntam o porquê ou para quê. Falamos sobre respeito, e isso levam novamente para dentro das famílias. Da conversa, do respeito mútuo, de parar e pensar antes de falar. Isso é muito importante.

A gente também participou de várias coisas. O Surf no Alemão não está somente voltado ao surf. Eu os levei para museus, circo, para que tenham essa interatividade nos tempos ociosos.

Quando se vive em uma comunidade onde se tem tudo – mercado, cinema, lojas de roupa e tal –, talvez você fique limitado àquilo. Não sai para conhecer outros lugares, onde se tenha novas culturas. E então você começa a perceber que o mundo está bem próximo de você e que pode quebrar paradigmas, preconceitos.

Fizemos duas feiras de emprego no Complexo do Alemão, uma na Nova Brasília e na Vila Olímpica da Grota. Rendeu frutos até para amigos do surf que hoje estão trabalhando. Foi bem bacana. São as transformações mais significativas que vejo. 

O que você espera para o futuro do projeto, inclusive após o filme ser lançado? Já tem ideias e planos próximos?

Meu sonho é ver o Surf no Alemão se expandir para as comunidades. Ser patrocinado e fazer uma coisa correta. Acredito muito que isso é possível. A idoneidade na política para que as coisas venham a funcionar como deveriam. Quando o filme for lançado, eu acredito que quem assistir vai sair impactado.

Os próximos passos são ser patrocinado e colocar o projeto em outras comunidades que carecem de pessoas que realmente queiram fazer a diferença na vida do ser humano. Tem muitas comunidades com muitos projetos, mas infelizmente vários são usados para lavagem de dinheiro. Isso é muito ruim. E a gente vê isso notoriamente. É uma triste realidade.

Já tentaram fazer com o Surf no Alemão, só que eu não aceitei. Eu acredito na idoneidade, no caráter, é isso que faz a diferença. Realmente, não há nada que pague quando alguém chega e fala: “Cara, obrigado pela força que você me dá.”

Tipo o Jonathan, o Yuri – um moleque maior do que eu que me chama de pai: “Papai, poxa, obrigado, você sempre tem uma palavra boa para me incentivar.” Isso é importantíssimo. Eu realmente sei que não tem preço. Não tem valor monetário que possa pagar algo assim. E a gente está falando de vida, né. Espero que a gente consiga um patrocínio legal para dar esse suporte ao Surf no Alemão e em outras comunidades.